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Alckmin pronto para a briga

Há dúvidas sobre fôlego de Doria e Alckmin fala na ‘vez da experiência’

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2017 | 03h00

Os partidos tradicionalmente aliados ao PSDB acompanham a corrida tucana com nervosismo e atenção redobrada, como em uma Olimpíada. A melhor aposta continua sendo o governador Geraldo Alckmin, porque é cedo para concluir se o prefeito João Doria terá fôlego para ser o candidato à Presidência da República, apesar de estar a mil por hora, viajando pelo País, ocupando espaço na mídia e se destacando nas pesquisas.

Sempre se fala em “fadiga de material” e que é hora de trocar o governo de São Paulo, depois de 22 anos de PSDB, mas o partido é vitorioso eleição atrás de eleição e acaba mantendo o Bandeirantes. Um dos motivos é que, em meio a uma crise que afundou a União e estados como Rio, Minas e Rio Grande do Sul, São Paulo continua respirando – e com uma reforma da Previdência de dar inveja.

Alckmin tem boa parcela de responsabilidade nisso, além de outros trunfos: é tucano de raiz, tem longa carreira política no Legislativo e no Executivo e recall de presidenciável em 2006. Até por isso, o presidente interino do partido, Tasso Jereissati, avisa: “Alckmin é o primeiro na fila do PSDB”.

Até aqui, ele sobreviveu a Serra, a Aécio e à Lava Jato, mas tem a candidatura pendurada nas investigações em São Paulo, que ganham uma força tarefa específica. Caso Alckmin venha a ser efetivamente alvo, a balança entre prefeito e governador pode desequilibrar abruptamente. Não é a expectativa, mas talvez seja esse o estímulo para Doria pular de Estado em Estado embalado pelo Lide, o Grupo de Líderes Empresariais. Aliás, ele viaja embalado pelo Lide, ou viaja para embalar o Lide?

Doria jura que não concorrerá contra Alckmin, nem no PSDB, nem numa nova sigla. Mas a questão de lealdade não é só em relação ao governador, mas também à própria capital. Para concorrer a presidente, ele teria de se desincompatibilizar da prefeitura seis meses antes das eleições, ou seja, em abril do ano que vem.

Não é simples, e não é saudável politicamente, desdenhar dessa potência menos de um ano e meio após assumi-la. São Paulo é a terceira maior cidade do mundo, uma cidade-Estado com quase 12 milhões de habitantes, e um dos maiores orçamentos da República - R$ 54,69 bilhões para este ano.

Serra que o diga. Ele se elegeu prefeito de São Paulo em 2004, abandonou o cargo em 2006 para disputar o governo do estado e venceu, mas pagou o preço ao disputar a volta à Prefeitura em 2012 e perder para Fernando Haddad, do PT, que jamais pisara num palanque antes. O eleitor paulistano deu o troco.

Outros exemplos históricos: Pimenta da Veiga jogou fora a promissora carreira política ao largar a prefeitura de Belo Horizonte para tentar o governo de Minas e perder; Waldir Pires encerrou a dele ao trocar o governo da Bahia pela campanha como vice de Ulysses Guimarães em 1989.

Contra Doria, há também o fato de que política é processo, mas ele virou candidato a presidente poucos meses depois de surgir do nada, eleger-se em primeiro turno e sair por aí com uniforme de gari. Doria se coloca como “o novo”, um Macron brasileiro, mas o risco é ser carimbado como um segundo Collor. Como contraponto, Alckmin diz a partidos potencialmente aliados que 2018 será “a vez da experiência”.

“O Doria está correndo uma maratona como se fosse uma corrida de cem metros. Pode não ter fôlego para chegar ao final”, avalia Rodrigo Maia, do DEM, partido velho aliado do PSDB, rara força política em ascensão e a um passo de trocar de nome – para “Centro”. A pretensão é lançar candidato próprio ao Planalto. Caso contrário, está mais para Alckmin do que para Doria, mas depende das pesquisas. Alckmin é mais forte no PSDB, mas Doria dispara no eleitorado. Esse tem de ser o principal foco do governador.

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