Alckmin exonera aliados de Aloysio na administração paulista

Pelo menos seis funcionários com laços estreitos com o senador tiveram que devolver seus cargos; governo e senador vêem mudanças como ‘normais’, mas aliado de Alckmin critica loteamento de cargos técnicos na gestão passada

André Mascarenhas, do Estadão.com.br,

24 de março de 2011 | 11h57

Aloysio e Alckmin: tucanos disputaram a indicação do PSDB para o governo em 2009

 

SÃO PAULO - Aliados políticos e amigos do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) que ocupavam cargos em secretarias e empresas públicas de São Paulo vêm sendo exonerados ou rebaixados de função desde o início do ano, num movimento interpretado por aliados do governador Geraldo Alckmin como um novo capítulo da disputa interna entre os dois caciques tucanos. O principal foco dos cortes é a região de São José do Rio Preto, base política de Aloysio, mas entre as baixas há também aliados do senador com cargos em São Paulo.

 

Pelo menos seis funcionários da administração com laços estreitos com o senador tiveram que devolver seus cargos. Procurados pelo Estadão.com.br, membros da administração, alguns dos exonerados e o próprio senador classificaram as mudanças como "normais" num período de transição de governo. Tucanos ligados ao governador, no entanto, não descartam que a questão política entre Alckmin e Aloysio possa ter influenciado, e criticam o loteamento de cargos técnicos por aliados do senador. 

 

Em 2009, os dois caciques disputaram nos bastidores a indicação do PSDB para a vaga de candidato do partido ao governo de São Paulo nas eleições do ano seguinte. Ex-secretário da Casa Civil na gestão José Serra, Aloysio é considerado um dos principais aliados do candidato derrotado do PSDB à Presidência em 2010. Desde que assumiu o cargo, em janeiro deste ano, Alckmin reviu contratos, demitiu aliados e reviu programas de seu antecessor.

 

Entre os funcionários exonerados ou que perderam cargo de confiança no governo há quatro ex-representantes regionais de secretarias ou estatais em Rio Preto, um ex-diretor administrativo-financeiro de estatal e um ex-assessor especial do governador.

 

Ao contrário do que vinha acontecendo nas últimas semanas, quando as baixas se concentraram na região de Rio Preto, o golpe mais recente contra aliados de Aloysio foi desferido dentro da secretaria ocupada pelo tucano até deixar o governo Serra, em março de 2010, para concorrer ao Senado. Nomeado subsecretário de assuntos parlamentares da Secretaria da Casa Civil durante a passagem de Aloysio pela pasta, o ex-deputado estadual Jayme Gimenez perdeu o cargo de assessor especial do governador no último dia 19. Com a decisão, o amigo de Aloysio fica também sem a gratificação de representação concedida aos funcionários de confiança do governador. As informações foram publicadas no Diário Oficial.

 

Gimenez, que é originalmente funcionário comissionado da Cetesb, foi alçado ao cargo de assessor especial do governador Alberto Goldman após participar da campanha vitoriosa de Aloysio ao Senado - trabalho que, garante, exerceu depois de pedir exoneração temporária de suas funções no governo. "De acordo com o chefe de gabinete da Casa Civil, a decisão não muda em nada minhas funções, mas aguardo uma conversa com o [secretário da Casa Civil Sidney] Beraldo para saber da minha situação", explica Gimenez.

 

O ex-diretor regional de Saúde de São José do Rio Preto Valdecir Carlos Tadei, indicado para o cargo por Aloysio em 2007, também está entre os aliados do senador demitidos. Amigo de Aloysio há 30 anos, Dr. Tadei, como é conhecido em Rio Preto, teve sua exoneração publicada no Diário Oficial de 23 de fevereiro. Alertada por uma fonte tucana, a reportagem sabia desde o dia 16 daquele mês que o cargo seria solicitado pelo governo.

 

Dr. Tadei é médico de carreira do Estado e já havia passado por posições na Secretaria da Saúde em governos anteriores, inclusive na última gestão Alckmin. Para ele, a troca no comando na diretoria regional é "normal". "O novo secretário queria um novo olhar para área, uma nova orientação, e avaliou que o meu perfil não se encaixava", avalia o médico.

 

Contrariados. Embora procurem não estabelecer ligação entre suas exonerações e as disputas políticas entre Aloysio e Alckmin, alguns dos prejudicados não escondem a contrariedade com as decisões. Após 11 anos de serviços prestados para governos tucanos no Estado, o ex-delegado regional de Esportes e Lazer Aguinaldo César Périco recebeu a notícia de sua exoneração pelo Diário Oficial, sem nenhum contato da secretaria. "Um belo dia você acorda exonerado, sem uma explicação sobre o porquê", desabafa Périco, que é filiado ao PSDB.

 

Indicado ao cargo pelo ex-deputado estadual Arthur Alves Pinto, ele resume sua relação com Aloysio como de "afeto e laços políticos". "Sempre estive presente nas campanhas dele, inclusive na última", garante. "A gente fica perguntando como vai ficar o meio político daqui pra frente, principalmente agora com a mudança do [prefeito de São Paulo, Gilberto] Kassab. Mas cargo comissionado é assim mesmo. Decisão de chefia a gente tem que respeitar", resigna-se.

 

Para alguns dos exonerados, as demissões causaram estranhamento, já que muitos se dedicaram também à campanha de Alckmin. "Fui até na posse do governador", garante a ex-delegada regional de Turismo de Rio Preto Heloisa Abudi, exonerada em 20 de janeiro. Filiada ao PSDB e amiga de longa data da família de Aloysio, a tucana afirma ter tirado férias para "levantar as bandeiras de Alckmin e Aloysio".

 

Presente. Já o ex-prefeito de Planalto Olímpio Severino da Silva perdeu o cargo de gerente regional da CDHU para um alckmista de carteirinha de Rio Preto. "O novo gerente foi coordenador de campanha do Alckmin em várias campanhas. Acho que o governo quis presenteá-lo", disse Silva, que ocupava a gerência regional da estatal desde 2007. "Eu sempre trabalhei para o senador", acrescenta.

 

Há ainda o caso do ex-diretor administrativo-financeiro da CDHU, Manoel de Jesus Gonçalves, demitido da estatal em 16 de fevereiro.

 

Consultado pelo Estadão.com.br, Aloysio avalia as trocas como "absolutamente normais". Segundo ele, as regionais são "ponta de lança das secretarias", e as mudanças corresponderiam às necessidades dos novos secretários.

 

Para parlamentares próximos ao senador, o assunto não passa de "futrica". Um deputado federal do grupo de Aloysio argumenta que outros aliados do senador continuam no governo. "O Alckmin quer montar o time dele. Se for pensar dessa forma, o governador não pode mudar ninguém", diz o deputado, que falou sob condição de anonimato. "Deputados ligados a Alckmin tem interesse em aprofundar esse racha", acrescenta.

 

Loteamento. Na avaliação de uma fonte da secretaria da habitação, onde pelo menos duas baixas atingiram aliados do senador, as mudanças acontecem porque a maioria das pastas está trocando suas diretorias regionais. O aliado do governador atenta, no entanto, para questões administrativas relacionadas aos funcionários demitidos.

 

Na CDHU, onde a taxa de inadimplência atinge os 30%, o diagnóstico é de que o ex-gerente regional da estatal em Rio Preto Olímpio Severino da Silva, que é policial militar, não possuía conhecimento técnico para ocupar o cargo, e teria sido indicado apenas pelos laços de amizade com o senador. "Não podemos usar um cargo desses para resolver problemas pessoais", analisa o funcionário. Ele admite, no entanto, haver algum tipo de motivação política para as escolhas. "É claro que as questões políticas sempre permeiam essas decisões. Mas também tínhamos reclamações aqui e ali", pontua.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.