Iara Morselli
Iara Morselli

‘Alckmin é o candidato do meu coração’, diz França

Novo governador de São Paulo afirma que conta com apoio do presidenciável tucano para disputar eleição contra João Doria

Adriana Ferraz e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2018 | 03h00

Márcio França (PSB), de 55 anos, assumiu nesta sexta-feira, 6, o governo de São Paulo já de olho na reeleição. Com o apoio de uma coligação formada por 12 partidos, França tem pressa para colocar em prática ações que o projetem como opção ao eleitorado e lhe assegurem o "posto" de candidato de Geraldo Alckmin (PSDB). Abaixo, os principais trechos da entrevista:

É possível deixar uma marca?

Sei da limitação, mas acho que dá para fazer bastante coisa, especialmente porque sou herdeiro do orçamento Alckmin, que é superavitário. Não acho que o Estado tenha de guardar dinheiro. Tem que pagar suas contas, é claro, mas sobrar dinheiro em caixa, pra quê? Gostaria de deixar uma marca na questão dos jovens.

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O senhor já tem o apoio de 12 partidos. Quantos vão receber secretarias e até que ponto isso não vira loteamento? 

Exatamente no padrão (Mário) Covas, Alckmin. Hoje há seis partidos com secretarias no governo, mas tem escândalo?

O que conta é a governabilidade ou a eleição?

A governabilidade. Agora não negociei secretaria com nenhum partido. Fechamos a coligação pela confiança na palavra. Todo mundo que é do ramo da política fala que o Márcio pode não estar forte hoje, mas vai ficar.

Há comentários de que o senhor, antes de assumir, já prometeu verba para asfalto no interior. Como faria isso?

Não tenho como firmar convênio antes. Mas, veja bem, eu fui prefeito e sei que a manutenção urbana está muito prejudicada. Tenho forte apoio na Assembleia. Os parlamentares têm emendas, tanto os estaduais como os municipais. Muitas não foram ainda colocadas. Eu vou pedir a eles que deem prioridade à manutenção urbana nas cidades. 

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Uma eventual aliança com PCdoB e PDT daria à sua chapa uma característica de esquerda? 

Perto da posição de ultradireita do (Jair) Bolsonaro vou estar sempre à esquerda. Perto do dele, o Alckmin é esquerda. 

Bolsonaro  ameaça Alckmin?

Bolsonaro é um fenômeno, desses  que surgem e tendem a ser atraentes, como  Luciano Huck. Até porque em eleição ninguém gosta da obviedade. Mas no litoral, por exemplo, as pesquisas indicam dez a dez entre Bolsonaro e Alckmin.

Mas isso não é ruim?

Acho que o eleitor à direita tende a se aproximar de quem é mais incisivo e esse não é o estilo de Alckmin. É do Bolsonaro, do Doria.

O eleitor do Bolsonaro é o eleitor do João Doria?

Não tenho a menor dúvida, pela aproximação da defesa da tese, a de que a bandeira do Brasil não é vermelha, é verde e amarela. 

O senhor espera que Alckmin esteja mais próximo da sua candidatura do que de Doria?

Eu compreendo bem o que aconteceu. 

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Ele queria apoiar o senhor?

Ele queria um palanque único. É evidente que isso permitiria que saíssemos unidos de São Paulo com 600 prefeituras, 90 deputados, uma estrutura nunca vista em São Paulo. Tenho uma relação pessoal com Paulo Skaf, com Rodrigo Garcia. Então é claro que a tendência de afunilar para uma única candidatura seria muito forte. Em dezembro passado, comemos uma pizza e o governador veio me comunicar isso que achava melhor termos uma candidatura só.

E disse que seria a sua?

Veja, ele nunca me falou que seria a minha. Mas sabendo que só posso ser candidato a governador, claro que estava pressupondo que seria a minha e trabalhou para isso. Chegou a falar com o João (Doria) duas vezes diferentes. Falou que as pessoas que votaram nele poderiam se sentir decepcionadas e eu também acho isso. Mas compreendo o movimento do PSDB ter um candidato. Eles estão aqui há muitos anos, tem muitos quadros em São Paulo. Enfim, não foi possível, o partido foi para a disputa e o João ganhou. Ele é muito proativo. É da índole dele ser assim. Uma vez fui à casa dele, quando ele especulou ser candidato, estava viajando o Brasil. Fui pessoalmente dizer que não estava correto ele ir contra o Alckmin. Daí, ele disse que não era candidato, que eram os amigos deles, toda aquela conversa. Falei que ele devia ao Alckmin e não pelo o que ele fez pela campanha à Prefeitura, mas pela vida pessoal dele. O Alckmin não se relaciona com pessoas dessa sociedade mais sofisticada. A única pessoa que o Alckmin sempre teve paciência foi com o João, sempre o prestigiou, sempre foi gentil. Então, ele devia isso ao Alckmin. E, nesse dia, ele me disse que se eu estava preocupado de ele ser candidato a governador não precisava porque ele tinha feito pesquisa e a pesquisa tinha mostrado que o eleitor não aceitaria. Disse que estava zero preocupado, que a minha preocupação era do Alckmin até porque tínhamos acabado de construir a candidatura dele. Sabe a impressão que fica? Que você passa duas horas na fila para ir num brinquedo e quando chega a hora já quer ir para outro. Dá a sensação que tudo é meio desprezível, passageiro, meio evento. Coisa de quem gosta de produzir evento. 

Vê alguma chance do Doria ser candidato à Presidência? 

Depois dele ter faltado com a palavra uma vez, nunca mais será o mesmo. Quando alguém dá a palavra e não cumpre, nunca mais ninguém acredita. Não manteve a palavra com o povo de São Paulo. Ele disse para mim várias vezes que ficaria até o final do mandato. 

Se fechar em São Paulo com outros partidos que tem candidato próprio à Presidência, como o Podemos, PCdoB e PDT, vai caber todo mundo seu palanque? 

O palanque hoje em dia é eletrônico. Não tem mais isso de comício. Vou defender abertamente voto no Alckmin. 

E se Joaquim Barbosa for candidato pelo seu partido?

Não senti ele convicto a ser candidato, muito menos a presidente. Tem uma história de vida linda, é um símbolo. 

O senhor se opõe à candidatura dele ao Planalto?

Não é que eu me oponha, mas apoio o Alckmin. Existe o candidato do partido e do coração. Meu candidato do coração é o Geraldo Alckmin. 

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O candidato do coração do Alckmin é o senhor?

Não tenho a menor dúvida. 

Por que o PSB não faz uma aliança formal com Alckmin?

Temos posições antagônicas. Em Pernambuco, o PSB deve ter uma aliança com o PT. Não temos como ter o PSDB lá. Na Paraíba, o PSB é anti-PSDB. 

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O senhor concorda com a posição de Alckmin de se manter distante do governo Temer?

Não sinto isso no governador. Ele quer construir uma candidatura própria, mas não quer ser o candidato do governo federal nem tem obrigação.

Como avalia essa polêmica sobre o Decreto dos Portos e o governo Temer. O senhor foi alvo de uma investigação ligada ao Porto de Santos.

Toda área do porto tem um regime jurídico completamente confuso e propenso a dar confusão. São concessões que foram feitas oferecendo um tipo de coisa que não foram entregues. 

O senhor teve alguma influência no Porto de Santos? 

O ministro dos Portos, Pedro Brito, foi indicado pelo Ciro Gomes quando ele era do PSB. Ele colocou quatro diretores da confiança dele, da relação pessoal dele, sem aceitar indicação. Fizeram um bom trabalho. 

Qual o melhor e o pior do governo Alckmin?

Alckmin tem algumas características especialíssimas. É um governo completamente estável, seguro. As pessoas se sentem seguras, as relações são institucionais. Ele é extremamente ético, em tudo. Não é o político mais ético que eu conheci, é o ser humano mais ético que eu conheci. Ele é muito rigoroso com ele próprio. Não tem final de semana, não tem férias, feriado. A agenda dele é inacreditável. E ele é uma pessoa pouco conhecida pelo Brasil. Se a população soubesse como ele é iria ter caravana aqui na frente gritando Alckmin presidente.

Mas ele é citado na Lava Jato.

No mundo jurídico o que vale é condenação na Lava Jato. Condenou? Transitou em julgado? Daí é culpado. Até lá é muito injusto. A impressão quando se fala que é citado na Lava Jato é que ele está no meio. E o que o Alckmin tem a ver com a Lava Jato?

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Um cunhado.

Mas se tem certeza? Do quê? Alguém viu o cunhado pegando dinheiro. Era para a empresa, era para ele próprio? São afirmações muito duras, eu preservo a honra das pessoas. 

O senhor falou que condenação só vale se transitado em julgado? Isso serve para o Lula?

Sem dúvida nenhuma. Para dizer que uma pessoa é condenada só com trânsito em julgado. Sou advogado, isso vale para o Lula e para qualquer pessoa.

E os defeitos do governo Alckmin?

Ele pegou uma crise financeira muito pesada, que certamente afetou o desenrolar das obras. Acho que a comunicação do Estado poderia ser mais incisiva sobre os fatos do governo. As pessoas não sabem o que acontece aqui. Quer ver? A taxa de homicídios é de sete para cada 100 mil habitantes. Em Miami, é 12. Mas as pessoas não sabem disso. Vejo artista dizendo que vai morar em Miami porque lá é mais seguro.

Mas sensação de segurança não está relacionada apenas à taxa de homicídios. O morador aqui vizinho, do Morumbi, não se sente seguro.

Você tem razão, não é só isso. Mas não é impressionante o dado de São Paulo ser 50% menor que o de Miami? São Paulo está acima da Califórnia em estradas duplicadas por território.

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