Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Alcance de delações ainda é desconhecido, diz Moro

Sem citar explicitamente Odebrecht, juiz da Lava Jato afirmou que comportamento de empresas em reconhecer delitos 'deve ser estimulado'

O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2017 | 02h04

LIMA - O juiz federal Sérgio Moro afirmou nesta quarta-feira, 22, que as consequências das delações da construtora Odebrecht, que admitiu ter pago subornos em troca de obras públicas na América Latina, ainda são desconhecidos.

"Existe hoje, como todos sabem, um acordo celebrado por uma destas grandes empresas, e que tem repercussões fora da fronteira do Brasil. Supostamente essa empresa havia pago propinas em outros países", disse Moro, sem citar a Odebrecht nominalmente. "Não sabemos ainda as consequências desses comportamentos."

Em acordos fechados com a Justiça dos Estados Unidos, Suíça e Brasil, a Odebrecht admitiu ter pago US$ 788 milhões em 12 países da América Latina e África. No Peru, onde também firmou acordo para confessar seus crimes, a construtora revelou o pagamento de US$ 29 milhões entre 2005 e 2014.

As investigações do esquema da Odebrecht no Peru envolveram, até agora, o ex-presidente Alejandro Toledo, buscado pela Justiça por supostamente receber US$ 20 milhões em troca da concessão de uma rodovia, e mantêm presos três ex-funcionários do governo do ex-presidente Alan García.

Para Moro, o comportamento das empresas de reconhecer delitos "deve ser estimulado". Ele pediu ainda que elas não sejam "sancionadas mais severamente" que aquelas que não fizeram acordos de delação, pois isso pode desencorajar a colaboração delas.

Este é um assunto que preocupa as empresas brasileiras envolvidas em corrupção no Peru. No caso da Odebrecht, o governo peruano solicitou a venda de ativos e o abandono do país.

Moro, juiz símbolo da Lava Jato, recomendou combater a corrupção sistêmica, que, segundo ele, permite que funcionários públicos endossem a sobrevalorização de obras. Os prejuízos aos cofres públicos, diz o magistrado, não podem ser sanados jamais.

Como exemplo, Moro mencionou a construção da refinaria de Abreu e Lima da Petrobrás, cujas obras começaram custando "US$ 3,5 bilhões e terminou custando US$ 18 bilhões, montante que não se recuperará em toda sua vida útil".

"A corrupção sistêmica afasta investidores, que podem preferir não entrar em um país com corrupção e não competir ali para não se envolver em crimes", disse o juiz. / AFP

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