Alas do PP tentam tirar suspeitos do comando

Dirigentes se rebelam contra os 26 membros da Executiva citados na Operação Lava Jato

VALMAR HUPSEL FILHO , RICARDO CHAPOLA , O Estado de S.Paulo

03 Abril 2015 | 02h05

O envolvimento da cúpula do PP nos principais esquemas de corrupção investigados pela Polícia Federal - nas Operações Lava Jato e Zelotes - criou no partido uma corrente que defende a saída dos suspeitos dos cargos de comando da legenda. Dos 32 políticos do PP que são alvo de apurações sobre desvios na Petrobrás no âmbito da Operação Lava Jato, 26 pertencem à Executiva Nacional. Estão entre eles o presidente do partido, senador Ciro Nogueira (PI), e o 1º vice-presidente (licenciado), Mário Negromonte (BA).

Pelo menos quatro diretórios estaduais do PP se rebelaram contra uma decisão tomada pela direção partidária na semana retrasada de adiar em até seis meses o próprio mandato que acaba no próximo dia 15 de abril. Esse grupo é composto pelos diretórios do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina e Goiás.

O presidente do PP gaúcho, Celso Bernardi, afirma que o partido está "desconfortável" com o envolvimento da cúpula da legenda nos principais esquemas de corrupção e diz ser contra a manutenção da atual direção. Para ele, chegou a hora de separar "o joio do trigo" na sigla.

"O partido está desconfortável com isso e quer novos caminhos e novos nomes para dirigir o partido em nível nacional", afirmou. "A instituição não pode ser vítima do processo. Temos que lutar dentro do partido para separar o joio do trigo", disse o dirigente estadual.

A Executiva Nacional do PP vai se reunir na terça-feira da semana que vem para definir a nova data da convenção.

Para o deputado federal Esperidião Amin (PP-SC), a resolução foi decidida por uma instância incompetente e sem amparo legal, uma vez que o estatuto interno do partido não prevê a prorrogação do mandato. "Só pode acontecer se for para coincidir com calendário eleitoral, o que não é o caso", disse.

Segundo o parlamentar, a justificativa que a Executiva Nacional usou para prorrogar o mandato - a investigação de lideranças na Operação Lava Jato - também pode ser usada para se pedir a alteração da diretoria. "É inegável que os pedidos de investigação causaram mal-estar no partido", afirmou.

O senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Operação Lava Jato, não atendeu aos telefonemas feitos pela reportagem. Aliados do parlamentar afirmaram que ele está em viagem.

Sob condição de anonimato, um parlamentar que integra a Executiva Nacional e também é investigado na Lava Jato, disse que "estranha" o comportamento desses diretórios. Segundo o parlamentar, a prorrogação do mandato da direção teve apoio unânime dos diretórios. A divergência, disse ele, ocorreu na definição do prazo de adiamento da nova convenção.

Ele afirmou que as propostas de prorrogação variaram de dois meses a um ano. A proposta de seis meses foi a mais aceita e teve apenas seis dissidências.

Zelotes. Além de estar no escopo da operação que investiga um esquema de corrupção na Petrobrás, o PP também entrou na mira da Operação Zelotes. A força-tarefa da Polícia Federal apura eventuais malfeitos dentro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - órgão que funciona como uma espécie de "tribunal" para julgar recursos de contribuintes em débito com a Receita.

A polícia investiga uma dívida tributária do PP da ordem de R$ 10,7 milhões. Por lei, partidos têm imunidade tributária e não pagam impostos, mas há exceções, como no caso de rejeição de contas pela Justiça Eleitoral. Diretórios da legenda sofreram reprovação nos últimos anos.

Um dos investigados na Zelotes é o conselheiro do Carf Francisco Maurício Rebelo de Albuquerque Silva, pai do líder do PP na Câmara, Eduardo da Fonte (PE).

Mais conteúdo sobre:
Lava JatopolíticosPPPetrobrás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.