Ala jovem tucana cria 'Movimento Mário Covas' para 'refundar' o partido

Objetivo dos chamados 'cabeças-pretas' é resgatar ideais da época de fundação do PSDB para trazer a legenda de volta à cena política

Renan Truffi e Igor Gadelha, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2017 | 05h00

BRASÍLIA - O acordo entre os senadores Aécio Neves (MG) e Tasso Jereissati (CE) para manter o tucano cearense no comando do PSDB ensaiou uma trégua à disputa interna que mobilizou o partido ao longo dos últimos meses. Mas esse compromisso não vai impedir que algumas das correntes internas continuem a discutir e debater a renovação da legenda. Ao lado de deputados mais experientes do partido, os “cabeças-pretas” estão à frente de outro movimento que busca superar as diferenças de idade e cores de cabelo para trazer, de volta, os valores da fundação do partido. 

Batizado de “Movimento Mário Covas”, em referência ao ex-governador de São Paulo e fundador do partido, o objetivo é que o PSDB resgate ideais da época de fundação da legenda para trazer o partido de volta à cena política. A ideia do movimento surgiu durante reunião na sala da liderança do PSDB na Câmara, na terça-feira, 1.º, véspera da votação da denúncia contra Temer no plenário da Casa. 

Na ocasião, o líder do PSDB na Câmara, deputado Ricardo Tripoli (SP), exibiu um vídeo da época da fundação do partido, no qual lideranças tucanas, como Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Covas, aparecem criticando a falta de democracia interna no PMDB, que abrigava a maioria dos fundadores do PSDB. Durante a conversa sobre os rumos do partido, o deputado Daniel Coelho (PE) fez a sugestão para que isso se tornasse num movimento de renovação.

O movimento inclui não apenas os deputados jovens e de primeiro mandato, mas também nomes mais veteranos, como é o caso dos deputados Vanderlei Macris e Silvio Torres, além do próprio líder na Câmara, todos de São Paulo. Uma das avaliações internas é que, durante a crise política, o PSDB perdeu espaço até para o DEM, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ).

Integrante dos cabeças-pretas, o deputado Pedro Cunha Lima (PB) afirmou que o movimento pretende propor uma agenda para o Brasil e que poderá ser usada pelo partido nas eleições de 2018. “Incomoda muito ter uma agência de Brasil muito óbvia que está sendo esquecida. A gente fica preso na crise política e para de falar em Brasil”, disse.

Uma das pautas do movimento, disse Cunha Lima, deve ser a redução do custo da máquina pública. “Por que o parlamento do Brasil tem que custar dez vezes o parlamento da Espanha? A Casa Branca (sede do governo americano) tem 377 servidores e o Palácio do Planalto, 3.800”, disse.

Também membro da ala dos “cabeças-pretas”, o deputado Betinho Gomes (PE) afirma que o movimento ainda é embrionário, mas tem o objetivo de reaproximar o partido de setores que estão distantes. “Queremos nos refazer, recuperar nosso discurso”, declarou.

O líder do PSDB na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), ressaltou que o movimento nasceu do desejo revisar o partido. “A ideia surgiu para que a gente possa não refundar, mas revisar, assumir os erros que cometemos e buscar qual caminho queremos seguir daqui para frente. É repensar o partido para o futuro, apresentando propostas”, afirmou.

O tucano paulista ressaltou que a ideia do movimento é unir o partido como um todo. “A iniciativa é de alguns, mas a ideia é integrar o partido como um todo”, afirmou Tripoli. O discurso já está afinado com o de Tasso Jereissati. Na coletiva em que anunciou sua permanência na presidência interina da legenda, o senador cearense mencionou a importância dos tucanos fazerem “autocrítica”. “Vamos desembocar em uma ampla rediscussão dos ideais do partido, dos princípios sobre os quais este partido foi fundado, uma autocrítica de onde nós nos desviamos desse partido, uma revisão e um novo programa”, resumiu.

As propostas do movimento serão discutida ao longo do segundo semestre, durante as reuniões preparatórias para convenções para renovar as direções municipais, estaduais e nacional. Segundo ele, o tema já deve ser abordado na reunião da executiva nacional da sigla nesta quarta-feira, 9, em Brasília.

“Quero ver quem vai ser contra um movimento chamado 'Mário Covas'”, resumiu o deputado Daniel Coelho. Questionado pela reportagem sobre o assunto, o senador José Serra (SP) se colocou à disposição para ser ouvido e lembrou que é, junto de Fernando Henrique Cardoso, um dos fundadores do partido. 

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