Ala ideológica do governo tira Regina, mas Marcos Pontes é alvo do Centrão e de militares

No Planalto comentário era o de que atriz não entendia 'jogo bruto da política'; cadeira de ministro das Comunicações enfrenta assédio do PSD de Kassab

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2020 | 14h54

Caro leitor,

A ala ideológica do governo venceu uma batalha com a queda de Regina Duarte da Secretaria da Cultura. Apesar dos desmentidos do presidente Jair Bolsonaro, a “fritura” da atriz era evidente e começou dias após sua entrada no primeiro escalão, há dois meses e meio. Agora, o próximo alvo é o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes. Mas a cabeça do ex-astronauta não é exigida pelo gabinete do ódio, como ocorreu com Regina. Ao contrário: as negociações que podem levar Pontes para o espaço fazem parte de um acordo com o Centrão, avalizado pelo núcleo militar da Esplanada.

Dias antes de Regina cair, já se dizia no Palácio do Planalto que ela não estava entendendo “o jogo bruto da política”. Naquele momento, a atriz não apenas não tinha carta branca para agir como nomeações e até dispensas feitas por ela haviam sido canceladas. No caso de Pontes, porém, uma outra queda de braço está em curso. O Ministério comandado por ele, com orçamento de R$ 14,4 bilhões para este ano, é cobiçado tanto pelo PSD de Gilberto Kassab – há 505 dias licenciado do cargo de secretário da Casa Civil no governo de João Doria (PSDB) – como por parlamentares evangélicos.

Ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro das Comunicações no governo de Michel Temer, Kassab é investigado em inquérito que apura a suspeita de ter recebido propina da JBS, entre 2010 e 2016. A acusação é negada por ele, que, logo após ser indicado por Doria para a chefia da Casa Civil, pediu licença não remunerada, sob o argumento de que precisava se defender. Deixou no cargo um homem de confiança, o secretário-executivo da pasta, Antônio Carlos Rizeque Malufe.

No Ministério das Comunicações, em Brasília, Kassab também conta com um aliado. Trata-se de Julio Semeghini (PSDB), o número dois de Marcos Pontes. Ex-deputado e ex-secretário de Governo da Prefeitura de São Paulo, Semeghini foi um dos articuladores da candidatura do então governador Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência.

O PSD recusa o rótulo de Centrão, mas, embora atue em raia própria, tem proximidade com integrantes do bloco de partidos de centro-direita, hoje na linha de frente dos acertos com Bolsonaro para salvá-lo de eventual processo de impeachment, em troca de cargos.

Apesar de ter sido tenente-coronel da Força Aérea Brasileira (FAB), Pontes foi para a reserva com apenas 43 anos, após ficar famoso por ter sido o primeiro brasileiro a viajar para o espaço, em 2006. Ele não tem, no entanto, o apoio dos militares, assim como não o tem o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, outro que vive em constante processo de “fritura” na Esplanada.  Além disso, o aval político com o qual Pontes contava no PSL era justamente da ala do partido que rompeu com Bolsonaro.

Diante de uma crise atrás da outra, o presidente se apressa para montar uma base de sustentação no Congresso, adotando a prática do toma lá,dá cá que dizia condenar. O deputado Fábio Faria (PSD-RN), genro do apresentador de TV Silvio Santos, é um dos que mais ajudam o Planalto na tarefa de negociar a possível vaga no Ministério das Comunicações, embora sempre diga não ter nada a ver com isso.

Na tentativa de mostrar que desfruta da confiança de Bolsonaro, Pontes apareceu ao lado dele na manifestação do último domingo, 17. O ex-astronauta e outros dez ministros se juntaram ao presidente na rampa do Planalto, em mais um ato que contrariou as recomendações de isolamento social da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o combate à pandemia do coronavírus.

Seguidores bolsonaristas nas redes sociais chegaram a levar para a Praça dos Três Poderes um caixão no qual aparecia a fisionomia de Sérgio Moro, o ex-juiz da Lava Jato que pediu demissão do Ministério da Justiça e acusou Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal. Mas essa é uma outra história, que terá novos capítulos nas próximas horas, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, responsável pelo inquérito que investiga as acusações de Moro, deverá divulgar o vídeo da famosa reunião ministerial de 22 de abril.

Um encontro com bate-boca entre ministros, palavrões, xingamentos dirigidos ao Supremo e ao Congresso e, segundo advogados de Moro, “confissão de culpa” por parte do presidente. Se for mesmo assim, podem faltar cargos para o Centrão.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.