Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ala governista do PSDB vê Tripoli enfraquecido após retirada de Bonifácio da vaga tucana na CCJ

Grupo afirma que líder do partido na Câmara tomou decisão desagregadora e que aprofundou a divisão dos tucanos sobre votação da denúncia

Daiene Cardoso, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2017 | 19h22

BRASÍLIA - A destituição do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) da vaga de suplente da bancada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara pode ter atendido parte dos tucanos preocupados com a imagem do partido, mas consolidou na ala governista do PSDB a insatisfação com a liderança do deputado Ricardo Tripoli (SP). Embora digam que não é o caso de trocar o líder porque não há clima político para isso, o grupo afirma que Tripoli tomou uma decisão desagregadora e que aprofundou a divisão dos tucanos na Câmara sobre a votação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer.

+++ Bonifácio nega traição do PSDB e se diz honrado por ter vaga do PSC na CCJ

"Decisões como essa não ajudam a unir a bancada. É óbvio que se isso se repetir, a tendência é que o líder se enfraqueça mais. Ele tomou uma decisão que não é da coletividade, que não foi aferida", criticou o deputado Caio Nárcio (PSDB-MG).

A destituição de Bonifácio foi deliberada nesta quinta-feira após reunião do mineiro com Tripoli, o presidente em exercício do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), e o líder do PSDB no Senado, Paulo Bauer (SC). Contrariado, Bonifácio ouviu dos dirigentes que, como não abria mão da missão e não se licenciaria do partido, seria retirado da vaga de suplente da sigla na comissão. Os tucanos alegaram que sua permanência como relator numa cadeira do PSDB causava constrangimentos e aprofundava a divisão entre os tucanos. Para manter Bonifácio na CCJ e na relatoria da segunda denúncia contra Temer, a base aliada se mobilizou e coube ao PSC ceder sua vaga de suplente para o tucano.

+++ Relator na 1ª denúncia, Zveiter pede que Pacheco indefira Bonifácio na vaga do PSC na CCJ

Os governistas da bancada reclamam que a retirada de Bonifácio da CCJ foi um erro de Tripoli, que por sua vez se respaldou em líderes fora da Câmara, como Tasso e Bauer, e não na maioria dos liderados. O deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) acredita que o líder paulista se afastou de boa parte da bancada ao não cumprir a promessa de que não tiraria ninguém da CCJ. Para Sávio, Bonifácio foi retirado por ter um posicionamento alinhado com o governo. "Isso é algo inaceitável, eu diria que é algo vergonhoso, não contribui para a unidade do partido. E um líder que não contribui para a unidade do partido fez uma opção. Esse é o grande erro de um líder: escolher um lado", enfatizou Sávio, se referindo à proximidade de Tripoli com a ala jovem do PSDB, os chamados "cabeças-pretas". Os jovens tucanos são, em sua maioria, favoráveis à admissibilidade da denúncia.

+++ Oposição pedirá na CCJ substituição de Bonifácio da relatoria da denúncia

A bancada tucana de Minas Gerais foi uma das primeiras a se levantar contra a decisão de Tripoli. Logo após o anúncio da destituição, os parlamentares reagiram contra a medida e a cúpula do partido se viu obrigada a divulgar uma nota enaltecendo as qualidades técnicas de Bonifácio para acalmar o grupo contrariado. "A nota amenizou bem a situação", contou Caio Nárcio.

Sávio disse que não há "pecado" em haver discordância interna sobre o mérito da matéria e que as grandes legendas também têm divergências de opinião. "O que seria absolutamente equivocado seria impor uma decisão. O PSDB não vai fazer isso", enfatizou.

+++ Entenda como será o rito da 2ª denúncia contra Temer

Nesta quinta-feira, logo após a destituição, o deputado Rogério Marinho (RN), declarou que Tripoli havia se distanciado de parte da bancada e que isso poderia ter desdobramentos. "Foi uma atitude sectária, que pode gerar consequências na relação interna", afirmou. O parlamentar, que havia cogitado iniciar um movimento para destituição do paulista da liderança, recuou. "Ele (Tripoli) foi eleito e deve continuar na liderança até o fim", emendou.

O grupo diz que não se sente mais motivado a seguir a orientação de Tripoli nas votações e que não se submeterá a um líder que, no episódio, não buscou a conciliação. "Na verdade, quem está perdendo a condição de líder de todos é o Tripoli pelas suas atitudes incoerentes e autoritárias. Não vamos destitui-lo, mas ele perdeu a condição de líder do conjunto da bancada. Não voto com ele, voto com a minha consciência", disse Sávio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.