Ajudar os outros pode reduzir risco de morte prematura

Os lápis de cor sumiam do estojo. O vestido de festa desaparecia do armário. Desde criança, Sônia Rocha, de 41 anos, é desapegada de suas coisas. "Eu dava para os amiguinhos que não tinham como comprar."Há três anos, Sônia se transformou no que mais queria ser quando criança: voluntária, para ajudar as pessoas. Na organização não-governamental Ação Solidária contra o Câncer Infantil, ela é conhecida como a voluntária Bombril, sempre disposta a ajudar no que for preciso. "Sempre morei perto do Hospital das Clínicas. Via as voluntárias passando na rua, aquelas senhoras vestidas de cor-de-rosa, e queria ser como elas."O universitário Felipe Abrahão, de 18 anos, e o advogado Roberto Ferrari de Ulhôa Cintra, de 60, têm a mesma disposição de Sônia. Nos fins de semana, Felipe dá aulas de espanhol para jovens carentes. Roberto participa de um grupo de ex-alunos que resgatou a centenária Escola Estadual de São Paulo, no centro da capital paulista.Ter o hábito de ajudar os outros pode reduzir pela metade o risco de morte prematura. A conclusão é de um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Os pesquisadores entrevistaram 423 casais, para avaliar o grau de ajuda que davam a parentes, amigos e vizinhos.Durante cinco anos, essas pessoas foram acompanhadas. Os resultados surpreenderam os pesquisadores. "Receber ajuda não reduziu mortalidade", disse ao Estado a psicóloga Stephanie Brown, uma das pesquisadoras da equipe.Os especialistas ainda não sabem explicar o fenômeno. "Uma hipótese é a de que ajudar os outros pode acelerar a recuperação de danos cardiovasculares."Sônia, Felipe e Roberto se sentem recompensados ao ajudar as pessoas: desfrutam de enorme sensação de bem-estar. "Olhar para os outros é se iluminar", disse Roberto. "As pessoas não sabem como é bom ajudar. Quero chegar aos 120 anos fazendo isso.""Sei que ajudar traz saúde", completou Sônia. Ela até arrisca uma explicação. "A gente passa a se cuidar mais porque sabe que o outro precisa do que temos de melhor."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.