Aids cresce entre homossexuais, revela pesquisa

O risco de homossexuais e bissexuais brasileiros se infectarem com o HIV, o vírus que causa a aids, é 11 vezes maior do que o dos homens heterossexuais, mostra estudo realizado pela Coordenação Nacional de Aids do Ministério da Saúde. Mas, em números absolutos, ainda são os homens heterossexuais que lideram em casos de pessoas contaminadas pela doença: 162.543 contra 111.331.Segundo dados dos boletins epidemiológicos, o vírus está se espalhando com mais velocidade em gays jovens - podendo repetir o que já ocorreu nos Estados Unidos e na Europa onde houve um relaxamento na prevenção da doença e crescimento dos casos em homossexuais com menos de 25 anos.Por causa desses indicadores, o ministério quer aumentar o número de programas de luta contra a aids e já prepara para agosto uma campanha nacional, especialmente destinada aos homossexuais. "Confirmamos algo que já imaginávamos. Foi bom porque agora temos certeza que temos uma população que precisa de uma política específica de combate à doença", explica o coordenador-adjunto da Coordenação Nacional de Aids, Alexandre Grangeiro.O estudo de risco foi feito com base em dados dos boletins oficiais que contam o número de homens que já manifestaram a doença e outros estudos que estimam quantos brasileiros já estão infectados com o HIV.O risco é deduzido estatisticamente pela comparação da prevalência (porcentual de pessoas infectadas no grupo analisado) do vírus em homens heterossexuais com homossexuais. Para fazer esse estudo, primeiro os técnicos tiveram de calcular o porcentual da população masculina brasileira que é gay e concluíram que é de 5,9%. "Essa é a primeira estimativa desse tipo feita no Brasil", afirma Aristides Barbosa Júnior, que coordenou o estudo do ministério.A maior preocupação do ministério e dos ativistas é que a confirmação do maior risco de contaminação ajude a aumentar o preconceito da população contra o grupo. O ministério divulgou a pesquisa para tentar informar a população e antecipar a campanha nacional nos meios de comunicação, que vai pregar o uso do perservativo e o não-preconceito."Temos medo de que esse tipo de informação seja usada por quem tem preconceito para "marcar" os homens que fazem sexo com homens, como ocorreu no início da epidemia", afirma Grangeiro."A prevalência maior nesse grupo já era conhecida. É uma questão comportamental e cultural. O que temos que enfatizar é que, com camisinha, a chance de contaminação é a mesma nos dois grupos, nula", afirma o médico infectologista e coordenador do Centro de Referência e Tratamento de Aids do Estado de São Paulo, Artur Kalichman.Outra preocupação do ministério é o crescimento de casos entre gays jovens. Levantamentos feitos entre os anos de 1993 e 1998 revelam que o aumento de casos de aids no grupo de homossexuais entre 15 e 24 anos foi de 16%, enquanto o grupo com mais de 24 anos teve uma elevação de apenas 10% no mesmo período . "Por causa desses números, resolvemos focar a campanha nos jovens porque eles hoje são a nossa maior preocupação", explica Grangeiro.Mário Scheffer, diretor do grupo ativista Pela Vidda, acusa o ministério de omissão e de co-responsável pela elevação dos casos. Ele afirma que o governo deixou de organizar projetos de prevenção para homossexuais e ignorou o problema. "Mesmo depois que vários estudos mostraram que os homossexuais estão deixando de usar camisinha, nenhuma medida foi tomada", acusa. Segundo ele, de mil programas de prevenção financiados pelo ministério, apenas 60 são destinados ao grupo."De um lado, sabemos que muita gente começou a relaxar no uso de preservativos, principalmente depois dos benefícios trazidos pelos remédios. O problema é que o governo está sabendo disso e não fez nada", disse.Grangeiro confirma que o número de programas destinados a homossexuais é realmente pequeno, mas rebate a acusação afirmando que a culpa é das próprias organizações não-governamentais, que, nos últimos anos, deixaram de criar projetos e apresentá-los ao governo.

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