Aids castiga população dos países pobres

A cada conferência anual sobre aids fica mais claro e evidente o novo perfil da doença: a síndrome da imunodeficiência humana adquirida está assumindo contornos de doença de pobres de países ricos e de pobres de países pobres. Tanto que nos encontros internacionais não são as novidades médicas que dominam o noticiário, mas a dificuldade de acesso aos medicamentos. Não é à toa que especialistas e cientistas começam a temer, para os próximos anos, uma redução nas verbas destinadas ao desenvolvimento de novas drogas e pesquisas: o "público-alvo" dessas inovações não tem como pagar por elas e vive em países cujos governos também não dispõem de recursos para financiá-las. A África é a região onde o fenômeno é hoje mais visível, especialmente nos rostos de 11 milhões de crianças e adolescentes que perderam um ou ambos os pais para a doença. Se nada for feito, esse número vai subir para 20 milhões até o fim da década. Só na África do Sul, há 17 vezes mais mortes na faixa dos 15 aos 34 anos do que haveria sem a epidemia. Há países, como Botswana, por exemplo, onde 39% da população é soropositiva. Esses números também têm um dramático impacto econômico: nas regiões mais atingidas, a produção agrícola caiu. Não bastasse, o sul do continente, o mais atingido pela doença, vai enfrentar nos próximos meses também a fome, resultado de dois anos de estiagem. Mas existe um enorme risco de africanização da epidemia em outras regiões do planeta. A aids pode se expandir de forma avassaladora, por exemplo, na Rússia, nas antigas repúblicas soviéticas e nos países do Leste europeu, na esteira do consumo de drogas injetáveis. Segundo especialistas, os jovens de Moscou estão usando drogas injetáveis, até porque tradicionalmente a medicina russa privilegia as injeções em detrimento dos comprimidos. A Ásia Central é outra bomba prestes a explodir em termos de aids. Oficialmente, há 840 mil casos de aids na Rússia. Na Ucrânia, 1% da população é HIV positiva e 75% dos casos são de consumidores de drogas injetáveis, a maioria opiáceos, feitos em casa e que, em algumas aldeias, são mais baratos do que bebidas alcoólicas. Como são fracos, porém, os dependentes precisam de seis a sete injeções diárias e não usam seringas descartáveis. A partir deles, a doença se espalha para seus parceiros sexuais e o número de grávidas e bebês nascidos com a doença começa a crescer. A Ásia, particularmente a Indonésia e a Índia, é outro motivo de preocupação. A Índia, ironicamente, é o país que fabrica os genéricos mais baratos contra a aids, mas não há uma política governamental que garanta o acesso dos doentes à droga. Além disso, o assunto ainda é tabu na conservadora sociedade indiana. A China só agora começa a encarar o problema. Este ano, o governo de Pequim reconheceu oficialmente a existência de 850 mil infectados - a maioria contraiu a doença no comércio ilegal, mas tolerado, de sangue. Sabe-se, porém, que o número de soropositivos é várias vezes maior que isso. Não é à toa também que o Brasil é cantado em prosa e verso como modelo a ser seguido pelos países pobres atingidos pela pandemia. Nos países subdesenvolvidos, que concentram a esmagadora maioria dos doentes, apenas 230 mil pessoas recebem medicação antiaids e a metade deles vive no Brasil. No restante da América Latina e Caribe, apenas 8% dos 2 milhões de infectados têm acesso a drogas anti-retrovirais. Alguns países da América Central conseguiram negociar descontos de até 90% com grandes laboratórios para obter anti-retrovirais. Política - Em Barcelona, o coordenador do programa brasileiro de DST-Aids, Paulo Teixeira, não conseguiu esconder sua decepção com o fato de o Brasil ser apontado como exemplo, mas um exemplo não seguido por outros países na mesma situação. Representantes de ONGs peruanas presentes à conferência afirmaram que seu governo está recuando nas ações antiaids. Ativistas chilenos reclamam que a Igreja sistematicamente impede que campanhas preventivas, estimulando o uso de preservativos, sejam veiculadas no rádio e TV. Mais do que dinheiro, falta vontade política de enfrentar a doença. (Com agências internacionais)

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