Aids agora atinge mais os pobres

A "peste gay" de 20 anos atrás é cada vez mais uma doença de gente e de países pobres, com conseqüências trágicas.Mesmo nos Estados Unidos, o país mais rico do Planeta, os especialistas constatam que em bolsões de pobreza, notadamente nos bairros negros, os índices de infecção atingem níveis africanos.Pesquisas recentes indicam que jovens gays e bissexuais, que não passaram pelo drama de enterrar um amigo por semana, se descuidaram, e as taxas de infecção estão crescendo em ritmo alarmante.O fenômeno se repete na Grã-Bretanha e na França. Se os olhos do mundo hoje estão voltados para a tragédia africana, onde há países em que mais de 10% da população adulta está infectada e não tem acesso a medicamento, os especialistas aguardam temerosos a explosão da epidemia em países como a China (onde médicos e enfermeiros nem conhecem a doença), Índia (com 4 milhões de infectados, convivendo com o paradoxo de ter os remédios mais baratos do mundo e uma população sem acesso a eles), além da Rússia e demais ex-repúblicas soviéticas, sem falar nos países do Leste europeu.Nessa última região, o vírus disseminou-se tanto pelo uso de drogas como pela expansão da prostituição. Nem os conservadores países do Oriente Médio estão livres da doença. O maior impacto da doença atualmente está na África sub-saariana, onde a população adulta de aldeias inteiras foi dizimada, restando apenas velhos e crianças.Sem recursos para comprar medicamentos, sem infra-estrutura de saúde e sob o peso de preconceitos, a população paga um preço enorme pelo descaso.A FAO, agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação, vem fazendo sucessivos alertas para o impacto que essas mortes têm sobre a produção agrícola, que vem caindo ano a ano. Na África do Sul, os órfãos da aids organizaram-se em gangues, e no país, com taxas de desemprego que alcançam 30%, a violência também explodiu.Sem ajuda do Ocidente, a África sub-saariana corre o risco de se transformar num trágico laboratório a céu aberto, revelando o que pode acontecer quando os governos não implementam campanhas preventivas e não garantem acesso da população ao coquetel anti-retroviral.

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