Água é commodity importante na capital brasileira do petróleo

Finas mangueiras negrasse entrelaçam pelo chão de Nova Holanda, uma favela naperiferia da cidade que gosta de ser chamada de a capitalbrasileira do petróleo. Antiga vila de pescadores no norte fluminense, a cerca de180 quilômetros do Rio de Janeiro, Macaé atraiu muita riquezapelo petróleo e pelo gás da sua costa litorânea. Mas a águapotável é um ativo quase tão precioso para grande parte dosmais de 200 mil habitantes da região. Ao longo dos anos, milhares de desempregados migraram paralá, construindo moradias onde quer que haja espaço. Assim surgiu Nova Holanda, que tem apenas uma tubulação queliga ao sistema principal da cidade -- forçando os seushabitantes a instalar um sistema precário com mangueiras paranão sofrer com o desabastecimento. As duras condições fazem de Nova Holanda um lugar hostil,sujo e violento para muitas pessoas. Mas é lucrativo paraoutras, como o taxista e empreendedor Edvar Santos, 58. "Meu filho, em Nova Holanda você só tem duas opções. Ouvocê paga os outros para pegarem a água para você ou você mesmousa uma bomba e faz sozinho", afirmou ele à Reuters. Santos diz ser dono de duas casas, um pequeno prédio e umacisterna capaz de armazenar 35 mil litros de água por semana. Ele e muitos outros vendem água saída do sistema públicopor cerca de 10 reais por cada 100 litros. Para quem preferefazer o trabalho sozinho, comprar uma bomba d'água custaaproximadamente 150 reais. Nélio da Cunha, 23, migrou da Bahia há alguns anos etrabalha na Petrobras em Macaé, no setor de maquinaria duranteo turno da noite. De dia, ele vende água para ganhar umdinheiro extra. "Macaé é uma cidade cara e nem todo mundo tem dinheiro comoesses empresários. Essa é a melhor solução que veio para ficaraqui. Não tem aluguel para pagar e não tem conta de água. Euacho que nos adaptamos bem", disse ele, que construiu uma casade frágil alvenaria em um terreno invadido no bairro. Se o Brasil é conhecido por suas grandes diferençassociais, Macaé representa o país bem, já que concentra renda emuma elite muito pequena. O PIB per capita da cidade é de 120.600 reais ao ano. Cercade metade do orçamento de 865 milhões de reais de Macaé em 2007veio de royalties de petróleo. Os royalties deveriam ser usados para compensar problemasde infra-estrutura que surgem após a corrida por empregos nacidade. NEGLIGÊNCIA A ambientalista Kátia Junqueira, do Instituto da AdvocaciaRacial e Ambiental (Iara), diz que as administrações da cidadede Macaé e de outras onde há petróleo não têm utilizado osrecursos dos royalties adequadamente, o que acaba gerandosituações como a de Nova Holanda. "A questão da água e a questão dos royalties são a mesmacoisa. Assim como acontece em outras cidades petrolíferas,Macaé não teve política para lidar com a migração e a ocupaçãoda sua área urbana", afirmou. "As mangueiras até que são uma solução inovadora, é a únicadesse tipo que ouvi falar no Brasil. Mas essas mangueirastambém mostram como essas pessoas foram negligenciadas por anose anos", disse ela. O secretário de Comunicação da Prefeitura, Rômulo Campos,reconhece os problemas nas áreas pobres de Macaé e afirmou queos investimentos planejados para Nova Holanda vão dobrar ofornecimento de água na região. Macaé terá um investimento de 15 milhões de reais neste anopara instalar 7.500 metros de tubulações no município. Mas isso ainda não é o suficiente, reconheceu ele. "Não podemos acabar com esses problemas de infra-estruturaque surgiram há décadas. Também estamos preocupados que aprodução de petróleo não está crescendo tanto quanto nos anosanteriores. Algum dia vai acabar, talvez em 30 anos. O que vaiacontecer até lá, só Deus sabe", afirmou Campos. Até lá, as mangueiras de Nova Holanda ainda podem estarfuncionando.

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