Agricultores protestam em RR

Saída forçada de não-índios começa hoje; desembargador diz não esperar resistência

Roldão Arruda, BOA VISTA, O Estadao de S.Paulo

01 de maio de 2009 | 00h00

Choro de não-índios, tensões entre índios e manifestações de protesto marcaram ontem o prazo final dado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para a saída d não-índios da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Hoje começa a retirada forçada das famílias que continuam na área - um espaço de 1,7 milhão de hectares, que passa para o controle de cerca de 19 mil índios, de cinco diferentes etnias. É fase final da Operação Upatakon 3, que mobiliza cerca de 400 agentes da Força da Segurança Nacional e da Polícia Federal.Ontem, em Boa Vista (RR), o desembargador Jirair Megarian, presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região e responsável pela coordenação da saída dos não-índios, afirmou que espera concluir a operação de maneira pacífica: "Só haverá violência se houver resistência violenta". O dia do desembargador foi agitado. Pela manhã, recebeu a informação de um aumento das tensões na Vila Surumu, ponto de acesso à terra indígena. Grupos ligados ao Conselho Indigenista Missionário (CIR) estariam forçando a saída de famílias em que se misturam índios e não-índios (e que têm o direito legal de permanecer na área).Em reunião com organizações envolvidas na operação de retirada, o desembargador constatou que os locais para onde as famílias estão sendo levadas não oferecem condições de moradia. Por isso, chegou-se a cogitar a possibilidade de uma dilatação no prazo de saída.A reportagem do Estado visitou um desses locais, a Cidade Satélite, na periferia de Boa Vista. As casas doadas pela prefeitura ficam no meio de conjunto habitacional ainda não inaugurado, sem moradores. Faltam água, luz, rede de esgoto, ruas, meio-fio, árvores. Para as famílias que preferiram ser transferidas para a zona rural, as condições não são melhores. Na reunião, o desembargador recebeu a promessa de que as instalações em Cidade Satélite ficarão prontas até segunda-feira. À tarde, ele foi à Vila Surumu. Não confirmou as tensões. O que há é uma disputa entre grupos indígenas quanto às casas desocupadas. "A briga agora vai ser de índio com índio", disse a tuxaua (cacique, na língua indígena macuxi) Elielva dos Santos. Ela integra a diretoria da Sociedade dos Índios Unidos em Defesa de Roraima (Sodiur), que se opôs à demarcação contínua. Do outro lado, o tuxaua Dionito José de Souza, presidente do CIR, admite conflitos, mas acredita que serão resolvidos.Um dos produtores rurais que continuam na reserva é Vanda Batista de Souza, de 53 anos. Ao lado da irmã e do cunhado, ela cria 150 cabeças de gado no Igarapé Azul, nas proximidades da Vila Fria. Ela foi à Funai para explicar, chorando, que não pretende ir para área designada. "Me ofereceram uma terra para a qual eu não gostaria de ir nem para ser enterrada", disse. "É tão ruim que está vazia há muito tempo porque ninguém nunca quis ir para lá." FRASESVanda Batista de SouzaProdutora rural"Me ofereceram uma terra para a qual eu não gostaria de ir nem para ser enterrada"Jirair MegarianDesembargador "Só haverá violência se houver resistência violenta"

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