Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Agora no PSB, Tabata evita declarar apoio a Lula e defende união com a direita

Deputada é alvo de parte da esquerda por ter sido eleita com bandeiras ligadas à área social, mas votado com o governo em assuntos econômicos, como pela reforma da Previdência

Entrevista com

Tabata Amaral, deputada federal

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 19h12

BRASÍLIA - A deputada Tabata Amaral (SP), que nesta semana se filiou ao PSB, afirmou em entrevista ao Estadão/Broadcast que estará em campo oposto ao do presidente Jair Bolsonaro em 2022, mas desconversa sobre um eventual apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “O partido tem muita ciência de qual é meu posicionamento em relação ao ano que vem e grandes lideranças de lá concordam que nós precisamos de um projeto de País, que una as pessoas da esquerda à direita”, disse ela. A deputada é alvo de parte da esquerda por ter sido eleita com bandeiras ligadas à área social, mas votado com o governo em assuntos econômicos, como pela reforma da Previdência. Após o anúncio de sua mudança para o PSB, o ator José de Abreu, apoiador do PT, reproduziu em seu Twitter uma mensagem sobre a parlamentar que dizia: 'Se eu encontro na rua, soco até ser preso". Para Tabata, esse é mais um exemplo do machismo que mulheres sofrem na sociedade. "Nós temos uma lei que tipifica a violência política de gênero, mas independentemente disso você ameaçar a integridade física de alguém, é um crime bem conhecido."

A sra. decidiu notificar judicialmente o ator José de Abreu por ele ter repostado uma mensagem sobre te socar até a morte. Qual é a resposta que a sra. espera da Justiça?

Assim como acontece na política, a Justiça também é feita majoritariamente por homens e há muito machismo a ser combatido nesse meio também. Então, o que espero é que a Justiça faça o seu dever e atue nesse caso com imparcialidade, com seriedade, entendendo que nós não podemos ser coniventes ou omissos quando o assunto é violência, independente de como ela se manifeste. Ciente de que muitas vezes a Justiça é muito mais dura com as mulheres e até insensível a crimes que atingem a integridade física e psicológica das mulheres, espero é que a lei seja cumprida nesse caso. Nós temos uma lei que tipifica a violência política de gênero, mas independentemente disso você ameaçar a integridade física de alguém, é um crime bem conhecido.

O PSB foi um partido que também puniu os deputados que votaram contra a reforma da Previdência, mesmo motivo do estopim do seu rompimento com o PDT. Não teme que o PSB possa fazer algo parecido com você daqui pra frente?

Ao longo dessas conversas, obviamente esse foi um ponto foi trazido, mas sempre havia uma afirmação e o entendimento dos dois lados que o momento político do Brasil exige essa capacidade da gente focar no que nos une e não no que naquilo que a gente diverge. Há uma compreensão no PSB que é necessário que lideranças do campo progressista, por mais que tenham diferenças pequenas, possam estar unidas em prol de algo maior. O PSB está dentro do campo progressista que é onde eu me encontro e está dando demonstrações de olhar para dentro e de fazer uma auto reforma.  Além disso, tenho certeza de que nas eleições do ano que vem o PSB vai estar numa posição de combate ao governo Bolsonaro, esse governo autoritário, corrupto e incompetente. O PSB está de fato trabalhando para que se tenha uma construção que vá da esquerda à direita e que quebre a polarização e que esse é um projeto de País.

Você vai ter liberdade para votar em pautas mais liberais no campo econômico?

Meu posicionamento econômico é de centro. Não me alio ao liberalismo brasileiro que temos hoje. Dito isso, o que conversei com o partido nessa construção, eles têm ciência da minha visão de mundo, inclusive na área econômica. E o partido realmente acredita que essa visão de mundo cabe. Muito diálogo vai acontecer nas próximas votações. O PDT nunca fechou questão sobre a votação da reforma da Previdência, infelizmente é um partido que tem dono e é muito personalista. O tratamento que o PDT deu a mim foi extremamente machista e diferente do recebido pelos outros sete colegas que votaram a favor da reforma. Eu tenho segurança que nenhuma dessas coisas vai acontecer no PSB, porque não aconteceu na história até aqui, agora eventuais diferenças em votações vão ter que ser discutidas uma a uma.

O PSB fechou questão contra a reforma administrativa. Qual é sua posição?

É uma posição contrária. Não vou nem comentar o terceiro texto [do relator Arthur Maia (DEM-BA)] que é o pior de todos, tem uma série de privilégios que são concedidos sem nenhum escrúpulo para a base do governo e vai no sentido oposto do que se espera de uma reforma administrativa que combata privilégios.

Você falou sobre evitar a polarização, mas o PSB acaba de filiar o governador do Maranhão, Flavio Dino, um nome que defende a atuação do ex-presidente Lula em 2022 e pode levar seu novo partido a caminhar nessa direção, como fica seu posicionamento nesse cenário?

Dino é uma das lideranças que mais admiro no País, justamente pela capacidade de dialogar e focar naquilo que de fato transforma a vida das pessoas para além das redes sociais. Vou para esse debate com muita tranquilidade. Para as eleições do ano que vem precisamos primeiro de um projeto de País. Não dá para achar que as pessoas vão de novo às urnas para votar A porque não querem B e achar que os problemas do Brasil vão ser resolvidos assim.

Mas, pelo cenário atual, há grande chance de o PSB ir com Lula.

O partido tem muita ciência de qual é meu posicionamento em relação ao ano que vem e grandes lideranças de lá concordam que nós precisamos de um projeto de País, que una as pessoas da esquerda à direita. Agora, não tem como eu dizer qual vai ser meu posicionamento porque não sei qual será o cenário e os candidatos. Meu primeiro comprometimento é contra o governo Bolsonaro.

Quais são suas pretensões políticas daqui para frente?

Estou bem focada no meu trabalho como deputada. Pretendo disputar a reeleição no ano que vem e acredito que tenho muito a contribuir ainda.

Você participou dos protestos do dia 12 de setembro que foram considerados esvaziados. Como viu isso?

Acho uma leitura só equivocada. A disputa nas ruas até onde me consta não é esquerda ou de direita. Até onde me consta, a gente não estava numa competição para ver quem colocava mais gente na rua. Todo impeachment começa nas ruas. Eu, do campo progressista, tenho mais tranquilidade de ser vocal contra o governo Bolsonaro. Pessoas da direita que defenderam o governo Bolsonaro e que votaram nele têm mais dificuldade de se posicionar, de dizer que se arrepende do seu voto. Então, me parece natural que nesse primeiro momento a esquerda consiga mobilizar mais pessoas porque está nesse projeto contra o governo Bolsonaro. Agora, me parece extremamente corajoso que meus colegas da direita também façam isso. Quem me convidar para ir às ruas contra o governo Bolsonaro vai ter o meu apoio.

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