SOLANO JOSÉ / ESTADÃO CONTEÚDO
Flagrante do censor dentro da redação do Estado de São Paulo, na capital paulista, em 1973.  SOLANO JOSÉ / ESTADÃO CONTEÚDO

Agora é samba

A ironia e a sutileza eram os instrumentos da imprensa para resistir à repressão no momento mais difícil da ditadura

Marcos Lisboa*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

“Agora é Samba”; dizia uma chamada no Estado que substituía a matéria censurada sobre a demissão do ministro da Agricultura, em 1973. A ironia e a sutileza eram os instrumentos da imprensa para resistir à repressão no momento mais difícil da ditadura. “Temperatura sufocante”. “O ar está irrespirável”. “Ontem foi dia dos cegos”. Essas foram algumas das notas encaixadas na primeira página do Jornal do Brasil no dia seguinte à promulgação do AI-5.

Meio século depois, a ditadura pode ser tratada amenamente nas conversas de botequim que oscilam entre o futebol e os disparates recentes de alguns condestáveis. Nada como desconhecer a ferocidade de alguns guardas da esquina na ausência do Estado de Direito.

A nova geração não vivenciou o pânico com a opressão que invadia casas e sequestrava pessoas escoradas pelo poder oficial sem o contrapeso da democracia. Discordar era crime, e era melhor jogar um exemplar de O Vermelho e o Negro, de Stendhal, no lago do Ibirapuera, um romance que se passa na França do século 19, do que ser acusado de comunista por ter um livro com a palavra proibida: vermelho.

Garoto nos anos 1970, ouvia os comentários, à boca pequena, sobre um irmão de amigos dos meus pais, por muito tempo isolado em uma cela, nu. A história, soube depois, foi pior e ele jamais se recuperou. Muitos jovens combatiam a ditadura. Alguns aderiram ao terrorismo, cometendo atos bárbaros. Mais inaceitável foi o descontrole do governo, detentor do monopólio da violência, que destroçou impunemente a vida de inocentes. Outros países enfrentaram o terrorismo preservando a democracia. Cabe ao Estado manter a sanidade mesmo frente ao descalabro. Conheci pessoas que ficaram surdas de um ouvido pelas torturas feitas por um delegado acusado de homicídios e investigado por tráfico de drogas. De alguns outros, sei nomes e lápides. De muitos, conheço só nomes; suas covas jamais foram achadas. O AI-5 abriu a represa da opressão. Pessoas, culpadas e inocentes, foram presas e torturadas, jornais foram censurados. A discordância se tornou crime.

O Estado reagiu com bravura à violência que invadiu as redações. As matérias censuradas eram substituídas por mensagens cifradas que tentavam contar para o leitor o que estava acontecendo. Receitas de culinária e trechos do velho poema de Camões, Os Lusíadas, passaram a ocupar o espaço órfão das notícias excluídas pelos guardas de plantão. Julio de Mesquita Filho, editor do Estado nos anos 1930, foi preso 17 vezes e exilado pela ditadura Vargas. Seu irmão, Francisco, assumiu o jornal e foi igualmente preso em 1940. Felizmente, a família Mesquita não aprendera a lição. Frente à nova rodada do arbítrio duas décadas depois, optou pela resistência usando como armas as palavras e a integridade. Este colunista da Folha de S.Paulo agradece aos herdeiros de Julio de Mesquita e aos jornalistas do Estado. Aproveito para homenagear Alberto Dines, que tanto fez pelo jornalismo e que coordenou a edição histórica do Jornal do Brasil sobre aquele trágico dia 13 de dezembro de 1968. As ditaduras vieram e se foram. O Estado celebra mais um aniversário.

*PRESIDENTE DO INSPER

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