Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Agente diz suspeitar dos 'reais motivos' das varreduras feitas no escritório de Edison Lobão Filho

Preso na Operação Métis, o agente do Senado Everton Taborda, em depoimento à Polícia Federal, alegou também desconforto com ação no gabinete do ex-presidente José Sarney 

Erich Decat, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2016 | 16h46

BRASÍLIA - Em depoimento realizado à Polícia Federal, o agente do Senado Everton Taborda afirma suspeitar dos "reais motivos" da varredura feita no escritório do então senador Edison Lobão Filho e alega que a ação realizada no escritório particular do ex-presidente José Sarney causou "desconforto". No interrogatório, Taborda ressalta, contudo, que não vislumbrava e não vislumbra nenhuma ilegalidade nas ações. Apesar disso, o mal estar gerado com os dois episódios, segundo ele, o levou a pedir para deixar o setor da Polícia Legislativa do Senado responsável pela realização das ações de contraespionagem.

 

Taborda foi um dos agentes do Senado preso na Operação Métis, deflagrada na última sexta-feira, 21. Desdobramentos das investigações da PF apontam que grupo, liderado pelo Diretor da Polícia do Senado, "tinha a finalidade de criar embaraços às ações investigativas dos federais em face de senadores e ex-senadores, utilizando-se de equipamentos de inteligência".

 

Ao logo do depoimento, realizado logo após a batida da PF no Senado, Everton Taborda afirma "que não tinha conhecimento àquela época de que Edison Lobão Filho poderia ser investigado pela Polícia Federal", mas que suspeitou dos "reais motivos" pelos quais o serviço foi requisitado pelo senador Edinho Lobão. A suspeita era de que Edinho Lobão pudesse estar envolvido na prática de crimes e interessado em saber se haveria algum equipamento de escuta ambiental instalado naqueles três locais pela polícia, situação que causou "desconforto e um dilema".

 

As varreduras de escutas requisitadas por Edinho Lobão ocorreram em São Luis (MA), em 2014, ocasião em que o então senador concorria ao governo do Estado. Na época, Taborda tinha menos de seis meses no cargo. Em meio ao "dilema" de encontrar uma escuta feita com autorização da justiça, segundo o agente, ele chegou a discutir, por iniciativa própria, com os outros integrantes da equipe um modus operandi que seguiria o seguintes passos:

 

A) Caso houvesse no equipamento de escuta ambiental alguma identificação de órgão policial tal material não deveria ser retirado do local e o fato não deveria ser reportado ao senador requisitante, mas apenas à direção da Polícia Legislativa, na pessoa do Pedro, a fim de que adotasse a medida que julgasse cabível

 

B) Caso não houvesse no equipamento de escuta ambiental alguma identificação de órgão policial, tal material deveria ser retirado do local e o fato deveria ser reportado ao senador requisitante e à direção da Policia Legislativa.

 

Remanejamento. No depoimento, Taborda afirma que participou da ação realizada no escritório particular do ex-senador José Sarney, em 2015, em Brasília. Em entrevista ao Estado, o autor da denúncia que acarretou na operação Métis, o policial legislativo Pedro Igor, afirmou que a varredura foi feita por meio de uma ordem de missão não numerada, oculta. Ou seja, não teria entrado no sistema da Casa. Taborda afirma, contudo, que "com certeza tinha ordem de missão", mas em outro trecho do depoimento diz "não lembrar de ter visto a ordem de missão" e que ela normalmente era entregue pelo diretor da Polícia Legislativa, Pedro Ricardo Carvalho, ao agente Geraldo Oliveira.

 

No depoimento, Taborda ressalta que nas ações realizadas não vislumbrava e não vislumbra nenhuma ilegalidade. Apesar disso, pediu para não fazer parte da equipe que fez varreduras nos escritórios da senadora Gleisi Hoffomann (PT-PR) e requisitou transferência para outro setor.

 

"Ora interrogado deseja asseverar que não tinha competência e alçada para aferir o motivo e o local das requisições do então senador Edinho Lobão e do ex-senador José Sarney, o ora interrogando percebeu uma certa incompatibilidade, o que intensificou o seu desconforto com a referida atividade, ocasionando o seu pedido para ser remanejado para outras funções", diz trecho do interrogatório.

 

Defesa. Procurado pela reportagem, o advogado de Everton Taborda, Felipe Santana, afirmou por meio de nota que a conduta do Policial Legislativo se deu no cumprimento das atribuições do servidor. "É imperioso esclarecer que não houve, da parte do senhor Everton Taborda, qualquer retirada de aparelho de escuta, seja clandestino ou oficial, mas apenas e tão somente a verificação de sua existência, em razão do cumprimento de uma ordem não manifestamente ilegal dada pelo seu superior hierárquico", diz trecho do documento.

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