Agente admite que grampo pegou jornalistas

Araponga corrige declaração a CPI e cita diálogos captados durante escutas de investigados

Vannildo Mendes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

17 de dezembro de 2008 | 00h00

O agente Márcio Seltz, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), voltou atrás no depoimento que deu à CPI dos Grampos e admitiu que jornalistas foram também apanhados nas conversas telefônicas que ele analisou para a Operação Satiagraha. No depoimento de 25 de novembro, ele deixara dúvidas quanto à presença de jornalistas nos grampos analisados.Em documento de retificação entregue à CPI, Seltz afirma que, no pendrive com os áudios da operação que diz ter entregue ao diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda - hoje afastado do cargo -, havia diálogos entre jornalistas e alvos investigados. Ele não esclarece, porém, se as interceptações foram feitas com autorização judicial ou não. A Abin informou que a retificação do agente não muda em nada o teor do depoimento de novembro, porque em nenhum momento ele diz que jornalistas foram grampeados na operação. Embora não sendo alvos, conforme a agência, jornalistas teriam sido captados em conversas interceptadas apenas porque falaram ao telefone com pessoas investigadas e não há irregularidade nisso se a interceptação for feita com autorização judicial. Mas para o presidente da CPI, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), a retificação do agente traz um dado novo e piora a situação de Lacerda. Ele lembra que, ao perguntar se havia conversas de jornalistas nos áudios que dizia ter recebido para análise, o agente teria respondido textualmente que não. Agora ele mudou esse dado e confirmou que havia, sim, conversa com jornalistas no pendrive que diz ter entregue a Lacerda. O fato, de acordo com o deputado, é que o novo depoimento deixa claro que "jornalistas foram apanhados nos grampos", que agentes da Abin "assumiram funções além de suas competências" ao manipular esse material e o diretor-geral afastado da Abin teve envolvimento na Satiagraha "muito maior do que admitiu no depoimento à CPI". DEFESALacerda não quis comentar a retificação do depoimento de Seltz. Mas mandou dizer pela assessoria que se reuniu, sim, com o agente, mas para tratar "genericamente" da operação. Reafirmou também que não recebeu do agente pendrive ou qualquer mídia com os grampos alegados, seja contra jornalista ou qualquer outra pessoa investigada na operação. Realizada em julho, a Operação Satiagraha desarticulou esquema acusado de crimes financeiros, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, resultando na prisão do banqueiro Daniel Dantas, do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e do investidor Naji Nahas. No relatório, o delegado Protógenes Queiroz, que acabou afastado do inquérito, afirmou que jornalistas haviam se associado ao banqueiro na prática de crimes.

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