Agenda verde não chega a campanhas estaduais

Em áreas afetadas por desmatamento, agronegócio e madeireiras financiam candidatos

Marcelo de Moraes, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Se a entrada da senadora Marina Silva (PV-AC) na disputa sucessória provocou o efeito do "esverdeamento" da campanha, obrigando os principais partidos a dar atenção ao tema, também abriu simultaneamente outra discussão. Ao mesmo tempo em que candidatos e legendas passaram a pregar maior defesa do meio ambiente, não têm como excluir a influência, nas sucessões regionais, de madeireiras e de empresas de agropecuária, apontadas pelos ambientalistas como responsáveis pelo desmatamento.

Só que essas mesmas empresas são também as principais molas de desenvolvimento econômico em muitas cidades. E pregar contra suas operações pode representar suicídio político, especialmente nos municípios das regiões Norte e Centro-Oeste, onde as madeireiras e empresas do agronegócio têm forte presença.

Na eleição de 2008, o impacto dessas atividades influiu diretamente na eleição de vereadores e prefeitos. Agora, em 2010, os políticos ligados ao setor que foram eleitos terão cacife para participar ativamente das campanhas locais. Assim, enquanto os palanques presidenciais esverdeiam para evitar que a ex-ministra do Meio Ambiente fique sozinha na defesa dessa bandeira, em vários lugares do Norte e Centro-Oeste esse discurso dificilmente será lembrado nas campanhas regionais.

Nas duas regiões, governadores, senadores e deputados são eleitos constantemente com apoio e contribuições financeiras desses setores para suas campanhas.

O governador de Mato Grossi, Blairo Maggi (PR), por exemplo, se elegeu duas vezes em sequência impulsionado pelo apoio do agronegócio. Maggi, que é um gigante da produção de soja, teve embates diretos com os ambientalistas, especialmente durante os primeiros anos de sua gestão.

Para se ter uma ideia do volume de recursos que uma campanha desse porte envolve, Blairo Maggi declarou à Justiça Eleitoral receitas de R$ 9,4 milhões em 2006, sendo mais de R$ 3 milhões doados diretamente por empresas de agronegócio.

O governador de Rondônia, Ivo Cassol, também foi eleito com maciço apoio desses setores e teve contenciosos com o setor ambiental, enfrentando divergência até mesmo com Marina Silva quando ela ocupava o Ministério do Meio Ambiente. Sua campanha teve arrecadação de R$ 4,5 milhões, também bancada significativamente por setores do agronegócio.

PARTIDOS

Na chamada área do Arco do Desmatamento, região crítica de corte de árvores, formada por 43 municípios das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, candidatos sempre foram eleitos com apoio e doações desses setores. Até porque esse tipo de atividade extrativista está entre as principais geradoras da economia não apenas dessas cidades, mas de suas regiões também. Tanto que madeireiros acabaram sendo escolhidos como prefeitos.

A questão independe de alinhamento com o governo federal ou não. No Arco de Desmatamento, a correlação de forças é suprapartidária. Entre as cidades que integram essa lista o PR elegeu oito prefeitos. PMDB, 6; PSDB, 5; PT, 4; DEM, 4; PPS, 3; PDT, 3; PSB, 3; PTB, 3; PP, 2; PV, 1 e PRP 1.

Levantamento feito pelo Ibama, tomando por base o período entre 1996 e 2004, mostra que os desmatamentos chegam a se acelerar nos anos em que ocorrem eleições municipais.

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