Agenda bilateral sofre de imobilismo desde era FHC

Anemia nas relações entre Brasil e EUA ficou crônica com a posse de Lula e o governo de George W. Bush

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Em março de 2007, Brasil e EUA anunciaram a "renovação" da relação bilateral. Embarcaram em projetos conjuntos na área de biocombustíveis, propagandearam a existência de um relacionamento "íntimo" entre os dois países e tentaram sacudir o marasmo no contato entre Brasília e Washington. Não conseguiram. A relação bilateral padece, desde os tempos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e de Bill Clinton (1992-2000), de uma anemia que se tornou crônica com a posse do presidente Lula, em janeiro de 2003, e com a administração George W. Bush (2001-2009).As agendas bilaterais apontaram, nos últimos seis anos, raros tópicos para uma parceria sustentável. Em junho de 2003, Lula embarcou para Washington com dez ministros para uma reunião de trabalho na Casa Branca. Queria sinalizar que sua política exterior não seria pincelada por dogmas ideológicos da esquerda e a prioridade para a Cooperação Sul-Sul não afetaria as relações do Brasil com os países mais ricos.Seu primeiro encontro oficial com George W. Bush ficou marcado pela criação de quatro mecanismos de diálogo e cooperação bilateral: para consultas políticas de alto nível, para o crescimento econômico, para agricultura e para energia. O único que realmente prosperou foi o de energia, que resultou na mesma parceria em biocombustíveis com a qual os EUA quiseram renovar a relação bilateral quatro anos depois. O documento do encontro de 2003 assinalou o "estabelecimento de um novo e mais elevado patamar" do relacionamento bilateral e previa a "conclusão exitosa" da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A relação jamais saiu do estágio apático e a Alca acabou enterrada dois anos depois, na Cúpula das Américas de 2005, por um esforço trilateral de Brasil, Argentina e Venezuela. O que ficou em pé, da reunião de 2003, foi a versão insistentemente reiterada sobre o "diálogo fácil" e as afinidades entre Lula e Bush. RODADA DOHANa semana passada, ao tentar fazer um resumo das relações bilaterais, o chanceler Celso Amorim, reconheceu que, além da cooperação em energia, a agenda pouco avançou. Em um exercício de memória, Amorim insistiu em que o mecanismo de consultas políticas criou uma "boa atmosfera" para o diálogo sobre os problemas na América do Sul e fora dela e para a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), que está à beira da morte.O chanceler festejou o fato de o comércio bilateral em 2008 ter alcançado a cifra recorde de US$ 53 bilhões e ter crescido mais do que as trocas de bens dos EUA com qualquer país com o qual tenha acordo de livre comércio. Esse avanço, entretanto, deu-se em função do empenho do setor privado. Desde 2003, a Alca foi abortada, a Rodada Doha está sem sinais vitais, e o Brasil não dispõe de nenhuma outra via de negociação que envolva a abertura do mercado americano.Nos últimos seis anos, os EUA não facilitaram dois dos três pilares da política externa brasileira, potenciais heranças de Lula nessa área. A Rodada Doha empacou em julho de 2008, para desgosto do governo brasileiro e do setor privado, por conta da intransigência dos EUA e da Índia. A reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com uma ambicionada cadeira permanente para o Brasil, não teve suficiente simpatia de Washington para avançar.Em janeiro de 2006, ao apoiar a continuidade do Brasil no comando das operações militares das Nações Unidas no Haiti, o então subsecretário de Estado americano para a América Latina e o Caribe, Thomas Shannon, foi questionado se essa ação credenciava o País a assumir essa vaga. Ele engasgou, recuou um passo, riu e não respondeu. Assim como Shannon continua no cargo, mesmo com a mudança da administração republicana para a democrática, a posição americana continua a mesma.Os EUA não prejudicaram apenas o terceiro pilar, ainda que tenha sido construído com um bom volume de críticas do presidente Lula a Washington. Trata-se da expansão das relações do Brasil com a vizinhança sul-americana e com o restante do mundo em desenvolvimento. Em 2005, a Casa Branca tentou cooptar o Brasil para uma parceria com o objetivo de frear a derrocada da democracia na América Latina - em especial Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela.O governo brasileiro rejeitou a parceria, reiterou que poderia cuidar da região e acabou com o aval de Washington para tourear os líderes menos ortodoxos e mais avessos ao "império", enquanto mantinha sua prioridade no Oriente Médio. Essa espécie de concessão da Casa Branca permitiu ao Palácio do Planalto maior mobilidade e ativismo na solução de imbróglios na América do Sul. Ajudou, dessa forma, a consolidação da hegemonia brasileira na região.

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