Agência Nuclear critica ministro Roberto Amaral

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com sede em Viena, recebeu com surpresa o anúncio de que o ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, teria defendido a obtenção pelo Brasil do conhecimento para a fabricação da bomba atômica. "Esse não é um momento apropriado no mundo para se fazer esse tipo de declaração", afirmou um funcionário da Agência, que preferiu manter-se no anonimato.Apesar de a assessoria de imprensa da AIEA querer primeiro uma confirmação oficial do governo do Brasil para comentar a notícia, técnicos em pesquisa nuclear da entidade deixaram claro que qualquer atividade nuclear no País é, e continuará sendo, vigiada pela AIEA.Além disso, o Brasil tem acordos com a Argentina e com os países da América que o impedem de desenvolver qualquer artefato militar com tecnologia nuclear. "O Brasil tem compromissos internacionais que o impede de construir uma bomba", afirma a porta-voz da AIEA, Melissa Flemings.Já a obtenção da tecnologia para fins pacífico é permitida pelas regras internacionais, contanto que sejam verificadas pela AIEA. Segundo o artigo 4 do Acordo de Não-Proliferação de Armas Nucleares de 1967, do qual o Brasil é signatário desde meados dos anos 90, os países podem desenvolver tecnologia nuclear para o uso civil.Para o pesquisador do Instituto de Controle Nuclear, Steven Dolley, entidade com sede nos Estados Unidos, a notícia deve ser seguida de perto pela comunidade internacional. "Sabemos que, no passado, o Brasil despertou a preocupação de muitos ao não assinar os tratados de não-proliferação de armas nucleares", disse o pesquisador. "Esperamos que o Brasil não queira agora desenvolver a tecnologia para ter a capacidade de produzir uma bomba. É necessário também que o Congresso brasileiro fique atento ao que poderá ser feito com essa tecnologia".Segundo funcionários do governo brasileiro, um dos benefícios em ter a tecnologia nuclear seria a interrupção da importação de urânio enriquecido, que hoje é usado para suprir as usinas atômicas de Angra do Reis. O Brasil é um dos cinco maiores produtores de urânio no mundo, mas precisa vendê-lo para outros países e recomprar o produto enriquecido e a um preço mais alto, para depois usá-lo na produção de energia.Mas, na avaliação de Dolley, esse não é um argumento para desenvolver tecnologia nuclear. "Existe um excesso de urânio do mercado internacional e o Brasil não precisa ter sua própria produção para que consiga o produto", disse.Já o pesquisador da Associação Mundial Nuclear, com sede em Londres, o Brasil está no caminho correto se quiser obter a tecnologia nuclear para a produção de energia. "Por muitos anos o País concentrou toda sua fonte de energia em um só recurso, o hidrelétrico", afirmou. "Está na hora de o País equilibrar as fontes de energia e, nessa estratégia, a tecnologia nuclear deve ser considerada".

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