José Parício/Estadão
José Parício/Estadão

Aeroporto mineiro serve a sertanejo e empresário

Ainda não homologada, pista de Cláudio, em terreno de parente de Aécio Neves, recebe aeronaves de cantores e de empresas, além de aeromodelistas

JOSÉ MARIA TOMAZELA , ENVIADO ESPECIAL / CLÁUDIO (MG), O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2014 | 02h02

Aeromodelistas, empresários e cantores sertanejos são os principais usuários do Aeroporto Deputado Oswaldo Tolentino, em Cláudio, município no sudoeste de Minas Gerais, a 150 km de Belo Horizonte. É o que relata o prefeito da cidade, José Rodrigues Barroso de Araújo (PRTB).

Segundo ele, a pista de asfalto - construída em 2009 quando o senador Aécio Neves (PSDB-MG), atual candidato à Presidência da República, era governador de Minas Gerais - é usada por artistas sertanejos famosos que chegam em seus aviões, a convite da dupla mineira Gino & Geno, que têm propriedades em Cláudio. "O aeroporto opera um voo ou outro. São aviões e helicópteros de empresários e de cantores sertanejos. Sabemos que hoje o aeroporto precisa da licença da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil)."

Segundo o órgão, o processo de homologação do aeroporto - construído pelo governo do Estado ao custo de R$ 13,9 milhões em um terreno desapropriado da fazenda de Múcio Guimarães Tolentino, tio-avô de Aécio - não está concluído porque faltam documentos a serem apresentados ainda pelo município.

Araújo diz que recebeu o aeroporto em junho, depois que o Serviço Nacional de Aviação Civil transferiu a posse à prefeitura. "Abrimos o local de manhã e fechamos à noite para evitar vandalismo." Na sexta-feira, às 10h30 o portão permanecia fechado com corrente e cadeado.

O prefeito argumenta que a cidade tem mais de 250 indústrias e comporta a benfeitoria. A prefeitura vai contratar zelador e segurança, informa, mas ainda não estimou os gastos. "Os benefícios serão maiores que a despesa", aposta. O orçamento do município para este ano é de R$ 56,3 milhões.

O empresário Pedro Henrique de Oliveira, da PH Transportes e Construções, conta que já usou "umas poucas vezes" a pista de Cláudio, mas prefere manter seu avião em Divinópolis, a 46 km de Cláudio. "Não dá para ficar usando sem o aeroporto estar homologado", afirma. O empresário Bráulio Campos, da Fundimig, também diz ter decolado e pousado em Cláudio com avião próprio. "Temos pressa na homologação, pois, assim que sair, as empresas vão investir na construção de hangares."

O moldador Anivaldo Teixeira, que pratica maratona ao lado da pista, disse que, toda semana, pelo menos uma aeronave desce no local.

O presidente da Associação da Indústria Mecânica de Cláudio (Asimec), Fábio da Costa Rodrigues, explica que os empresários usam a pista local por falta de opção. "Eles vêm e descem aqui porque o aeroporto de Divinópolis está a, pelo menos, uma hora de carro." Segundo ele, a frota dos empresários locais soma três aviões e um helicóptero. "Além desses, muitos outros descem e sobem daqui, e a pista vem sendo utilizada mesmo sem ser homologada. Para resolver isso é só a Anac homologar."

Rodrigues defende o aeroporto que, segundo ele, era uma reivindicação antiga dos empresários. "O Aécio não fez pensando nele, pois já o vi muitas vezes indo de helicóptero para sua fazenda. Se ele precisar, pode usar como qualquer pessoa. Teve uma época que o local era usado para voos panorâmicos." Para o líder empresarial, toda cidade do interior merece ter um aeroporto. "Há casos de emergência em que, se você não puder voar, perde uma vida."

O candidato do PSDB possui fazenda que fica a 6km do local, mas evita responder se utiliza a pista. "Sobre esse assunto já dei todos os esclarecimentos que julgava necessários", disse Aécio ontem, em São Paulo.

A polêmica sobre o aeroporto em Cláudio vem desde a década de 1980. O então governador, Tancredo Neves, avô de Aécio, fez repasses de Cr$ 30 milhões para a prefeitura de Cláudio, em 1983, então dirigida por Tolentino, seu cunhado. O dinheiro serviu para a construção do aeroporto com pista de terra batida.Tolentino é réu em ação de reparação de danos ao erário. Já na gestão de Aécio, o governo de Minas desapropriou a área por R$ 1 milhão.

Desde que ficou pronta, em 2010, a pista de asfalto de 30 mil m2 também serviu de base para voos panorâmicos e treinos de uma escola de formação de pilotos. Um grupo de fãs de aeromodelismo usa a pista para demonstrações nos finais de semana.

O ex-vereador Israel de Souza (PTB), que em 2004 denunciou uso indevido de dinheiro público no aeroporto, disse que se afastou da política. "Fui muito perseguido porque denunciei o que estava errado e a Justiça acatou", afirmou. "Se o campo de aviação estava sob questionamento da Justiça, ele (Aécio) não deveria ter desapropriado." Sobre a desapropriação da área,o tucano afirma não haver irregularidades e que o caso já está esclarecido. / COLABOROU PEDRO VENCESLAU

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