Aécio troca discurso pós-Lula por postura anti-Lula

Senador eleito por MG diz que 'por suas últimas atitudes, o presidente terminará seu governo menor do que iniciou'

Christiane Samarco, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2010 | 11h38

A radicalização da campanha eleitoral levou o ex-governador e senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) a se mover do discurso do pós-Lula para uma postura anti-Lula. Depois de passar oito anos provocando incômodos no PSDB por conta da boa relação pessoal com o Planalto, Aécio afirma agora que "por suas últimas atitudes, o presidente terminará seu governo menor do que iniciou", e mais: Sugere que Lula faça um "mea-culpa" depois da eleição, reconhecendo os "excessos" para assegurar uma transição "serena e pacífica", independentemente de quem seja o vencedor.

 

Em entrevista ao Estado, o senador mineiro confessa estar "decepcionado" com o chefe da Nação que "se despe da função presidencial e vira cabo eleitoral" para atacar o candidato da oposição. Mais do que uma queixa, ele diz que sua intenção é fazer um alerta em defesa da democracia e da paz na política. "Entre a chefia de Estado e a chefia de um grupo político, Lula opta claramente pela segunda e presta um desserviço àquilo que ele próprio ajudou a construir, que foi a democracia no Brasil", afirma. A seguir, a entrevista.

 

Como o senhor avalia o comportamento do presidente Lula nesta reta final da campanha?

É triste o figurino que o presidente resolveu vestir ao final desta campanha, com atitudes absolutamente impróprias e esquecendo que é o presidente de todos os brasileiros. Ele optou, como diz o Serra, por ser o presidente de uma facção. É triste e preocupante ver como as instituições de Estado se colocaram a serviço de um mundo político. A própria Polícia Federal, neste papel absurdo e ridículo que fez nestes últimos dias, criando versões que possam atender aos interesses do PT. A democracia que foi conquistada por tantos brasileiros não merecia, no momento de sua consolidação e amadurecimento, assistir a cenas como estas que não engrandecem o País. É desolador ver a forma como o presidente está terminando esta campanha.

 

.O senhor acha que o presidente está trocando a faixa presidencial pela camisa de militante partidário?

Sempre tive uma boa relação pessoal com o Lula que sempre busquei preservar. Eu reconheço os avanços que houve no governo dele mas, por estas últimas atitudes, o presidente Lula, passadas estas eleições, termina seu governo menor do que iniciou.

 

Isto compromete de alguma forma a relação entre governo e oposição na próxima administração, qualquer que seja o resultado da eleição?

O que me preocupa é que esta postura de dirigentes do PT e do próprio Lula, independentemente do resultado eleitoral, crie no País um clima de muito maior acirramento e radicalização, no período pós-eleitoral, do que seria adequado e se esperava.

 

No cenário atual, a transição para o próximo governo corre risco?

Não acredito que corra risco, mas buscar vencer o adversário é uma coisa, e tentar dizimá-lo, é outra. Quando não há palavra de equilíbrio e ponderação das maiores autoridades do País, recomendando cautela e prudência e esses exemplos não vêm de cima, é claro que o pós-eleição pode ser mais radicalizado do que seria bom para o Brasil, independentemente do vencedor.

 

No ponto em que a radicalização está hoje, dá para recompor as relações políticas entre petistas e oposição?

Todos nós que somos responsáveis temos que trabalhar nesta direção. Mas as últimas ações do presidente não contribuem e vão na direção inversa, a do acirramento. As últimas declarações dele foram imprudentes e equivocadas e não contribuem para o que é essencial: uma sucessão serena e tranquila, qualquer que seja o futuro presidente. Infelizmente, Lula não tem contribuído de forma positiva para sua própria transição.

 

Abertas as urnas, o senhor avalia que o presidente terá de fazer um gesto pela pacificação?

Acho que o presidente Lula acabará fazendo um mea-culpa, vai compreender que cometeu excessos nesta campanha e que sua figura representa muito mais que apenas um cabo eleitoral. Ele próprio fará um gesto para preservar sua imagem que é um patrimônio importante diante de tantos brasileiros que não votaram nele, mas que o respeitam, como eu próprio. Todos nós, independentemente do resultado eleitoral, temos que trabalhar para que a transição seja absolutamente serena e pacífica porque os governos passam e a democracia deve ser permanente".

 

Suas observações são uma queixa ou o senhor faz um alerta ao País?

Acho que é mais um alerta e uma certa decepção de quem sempre reconheceu valores no presidente. Eu continuo reconhecendo, mas acho que ele ultrapassou os limites daquilo que seria adequado a um chefe de Estado. Entre a chefia de Estado e a chefia de um grupo político, Lula opta claramente pela segunda e não é algo que contribua. Com estas ações, ele presta um desserviço àquilo que ele próprio ajudou a construir, que foi a democracia no Brasil.

 

Oposição e até aliados do presidente sempre disseram que Lula é fundamental para impor limites aos grupos mais radicais do PT. Agora, como fica?

Quando Lula eleva muito o tom, ele incita os setores mais radicais do partido. O que fica é que seus liderados se acharam no direito de agir de forma ainda "mais irresponsável" e isto certamente é preocupante. O presidente deixa uma mancha em sua trajetória ao final de seu governo.

 

Isso muda o comportamento do PSDB na reta final da campanha?

A estratégia não muda, mas é o momento de deixar um alerta. Há preocupação. Não se sabe como os liderados do presidente Lula recebem esta sinalização do presidente. Vamos ficar na expectativa de que agressões não ocorram. De nossa parte vamos enfrentar isto sempre com muita tranquilidade e serenidade. A orientação do partido à militância tucana é para que não aceitem qualquer tipo de provocação nesta última semana de campanha.

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