Aécio tem liderança, mas reconhecimento de Lula em Minas é forte

Apesar da prudência mineira, ex-ministro Patrus Ananias afirma que perspectiva é que Dilma Rousseff vença em Minas Gerais

Malu Delgado, de O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 19h35

SÃO PAULO - O ex-ministro Patrus Ananias, coordenador da campanha de Dilma Rousseff em Minas Gerais, acha que o empenho do ex-governador Aécio Neves (PSDB) no Estado não será suficiente para uma virada do presidenciável José Serra (PSDB). O tucano dedica boa parte da sua agenda na reta final de campanha ao Estado. Hoje, por exemplo, fez uma turnê no Estado.

 

Para o petista, Dilma vai vencer em Minas. Porém, como bom mineiro, diz que "dorme no chão para não cair da cama". A declaração do Papa Bento XVI em relação ao aborto, diz Patrus, não será suficiente para reacender o tema na campanha.

 

Em conversa com o Estado, o ministro admite, ainda, que programas sociais precisarão ser aperfeiçoados num eventual governo Dilma.

 

Veja abaixo os principais momentos da entrevista:

 

Promessa de Dilma de erradicar a miséria

 

Estou convencido de que isso é extremamente possível. Sobretudo ampliando a integração das políticas sociais.

 

O Bolsa Família está tendo o êxito que tem exatamente porque não é um programa isolado. Está dentro de um conjunto de ações e políticias públicas. No Ministério há políticas públicas de assistência social, por exemplo o Benefício de Prestação Continuada, com valores superiores ao investimento do BF. Garante o benefício mínimo a todas as pessoas com mais de 65 anos e deficientes incapacitados para o trabalho que sejam pobres.

 

Temos os centros de referência e assistência social, que são os CRAS, implantados nas comunidades pobres e interagindo com todas as famílias que recebem o Bolsa Família. Tem o Pró-Jovem Adolescente que trabalha com adolescentes de 16 e 17 anos que trabalha com os jovens que recebem Bolsa Família. Estamos ainda integrando o Bolsa Família com o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Temos ainda os programas de segurança alimentar, os restaurantes populares, as cozinhas comunitárias. Quem os frequenta, na grande maioria, são pessoas vinculadas ao programa. Estamos ainda integrando cada vez mais o Bolsa Família a programas de apoio à agricultura familiar, através do PAAG - Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar. Temos ainda as condicionalizantes, em que as famílias se comprometem a cuidados com a escola e com a saúde. Portanto, há um conjunto de ações e de obras sociais que interagem com o Bolsa Família que possibilitam a potencialidade do programa. Claro que o compromisso que a Dilma assumiu é de ampliar isso, de buscar cada vez mais a ampliação dos programas sociais.

 

Já estamos acabando com a fome no Brasil. Hoje a fome é pontual. Há pontos ainda, até porque a pobreza muitas vezes é oculta. Mas a fome endêmica, a vergonhosa que o Brasil tinha até recentemente, aquelas multidões no Nordeste, no Norte de Minas, quando se criavam aquelas frentes de trabalho sem nenhum critério e nenhuma interlocução com políticas públicas, isso não existe mais.

 

Capacitação profissional de beneficiários do Bolsa Família

 

Acompanhei o início do programa Primeiro Passo no ministério. A proposta é correta, de capacitar pessoas beneficiárias do programa dentro das possibilidades que o País está abrindo, como obras do PAC, construção civil, turismo, jogos olímpicos, copa do mundo, considerando o crescimento do turismo. No início do programa tivemos sim algumas dificuldades que acho que podem ser perfeitamente corrigidas. Pode haver uma ação mais integrada, por exemplo, com as prefeituras. Todas as nossas políticas sociais, de maneira republicana, são implantadas em parcerias com os governos estaduais e municipais, que estão na ponta. Acho que também tivemos problemas com a capacitação. Temos que avaliar isso, se a capacitação deve ser dada e terceirizada pelas empresas, Senai, por exemplo, ou se deve ser dada diretamente, pelo próprio sistema de políticas sociais. Ou se envolvemos aí também o Sistema S. Mas é um desafio importante e estou convencido de que o programa tem todas as condições de superar os entraves iniciais.

 

Aécio Neves e a votação de Serra em Minas

 

Pelas pesquisas a Dilma está liderando em Minas. Mas, como bom mineiro, sou daqueles que dorme no chão para não cair da cama. Claro que o ex-governador tem realmente uma liderança forte no Estado. Mas o presidente Lula tem também um reconhecimento muito forte. Estamos trabalhando com a perspectiva de que a Dilma ganhará em Minas e também em Belo Horizonte. Estamos na frente, mas sem nenhuma arrogância. Temos a convicção de que estamos numa eleição bastante disputada.

 

Aécio e o assédio a prefeitos

 

A relação do Lula com os prefeitos foi uma das conquistas mais importantes que tivemos nos últimos anos. Implantamos todas as nossas políticas sociais em parceria com as prefeituras. No caso do Bolsa Família, por exemplo, que faz o cadastro são as prefeituras. O Lula aumentou o repasse do FPM, para compensar a crise econômica. Todas as ações de saúde, do SUS, na assistência social, na educação, tudo é integrado com as prefeituras. Nunca houve uma relação tão construtiva. No final do governo FHC os prefeitos foram recebidos com cachorros. Nos oito anos do governo Lula tivemos um diálogo permanente. O presidente sempre pediu que criássemos espaço na agenda para recebermos os prefeitos. O que eu vejo em Minas é o contrário: prefeitos do PSDB e do DEM que, pela correção do governo, dão apoio à candidatura da Dilma.

 

Eleitores de Marina em Minas e Belo Horizonte

 

Estamos trabalhando para conquistá-los. Temos o apoio do candidato do PV (ao governo do Estado), o José Fernando. O deputado federal Fábio Ramalho (PV), muito bem votado, também manifestou apoio. Outras entidades, lideranças, como o Apolo Lisboa, ligado ao projeto Manuelzão, de revitalização do Rio das Velhas, e muitas lideranças do PV ou não partidárias, de ONGs voltadas para a questão ambiental, estão apoiando a Dilma. A candidata já incorporou de forma criteriosa questões importantes para esse setor. Estamos ampliando a votação da Dilma no campo dos eleitores da Marina. Há ainda lideranças nacionais importantes que apoiaram Marina, como Leonardo Boff, que estão absolutamente comprometidos com a campanha da Dilma.

 

A campanha vem crescendo, que algumas questões foram esclarecidas. A campanha muito negativa que ocorreu, de vincular questões religiosas, foi superada. Penso que a campanha está crescendo. A militância do PT está indo para a rua, com determinação, tendo uma participação muito mais ativa.

 

Minas e a definição do processo eleitoral

 

Não gosto de coisas muito peremptórias. O enfático tem que ser sempre relativizado. Mas é um dado objetivo. Minas é um Estado muito importante do Brasil e tem posição geopolítica estratégia. Tem uma importância histórica, simbólica. Talvez seja o Estado síntese do Brasil, vários autores tratam disso, como Jacques Lambert. Minas representa o Brasil. O que acontece em Minas tende a acontecer no Brasil e vice-versa. Claro que a posição de Minas pesa e muito. Por isso estamos trabalhando para que o Estado eleja a Dilma.

 

Papa, aborto e campanha eleitoral

 

Não acredito mais nisso (que o tema voltará à campanha). Fiz um texto sobre a questão do aborto, que enviei para vários bispos em Minas. Está muito clara a posição da Dilma. Tentaram criar um clima. Mas ficaram muito claros os compromissos dela. Tivemos um governo por oito anos e não alteramos a lei (vigente sobre o aborto). Mandei uma carta para vários bispos e religiosos e me deram um retorno muito positivo.

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