Aécio se diz 'traído' por Demóstenes por indicação de prima de Cachoeira

Escutas da PF mostraram que senador intercedeu junto ao ex-governador de MG para arrumar emprego a Mônica Vieira; tucano negou ter ligações com contraventor

Rosa Costa, da Agência Estado

24 de abril de 2012 | 18h19

BRASÍLIA - O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse nesta terça-feura, 24, que se sente "traído" pela iniciativa do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) de lhe pedir a nomeação da prima do contraventor Carlinhos Cachoeira em um cargo comissionado. A prima do bicheiro, Mônica Beatriz Silva Vieira, assumiu o cargo de diretora regional da Secretaria de Estado de Assistência Social, em Uberaba, em 25 de maio do ano passado.

Segundo reportagem publicada nesta terça pelo Estado, do pedido de Cachoeira a Demóstenes até a nomeação de Mônica bastaram apenas 12 dias e 7 telefonemas. A informação de que Demóstenes fez o pedido a Aécio, atendendo a uma demanda de Cachoeira, está comprovada pela escuta telefônica da Polícia Federal, na Operação Monte Carlo. Ele lembrou que, na época, comunicou ao presidente do DEM, José Agripino (RN), que aquela demanda estava sendo atendida. Aécio garantiu que não tem nenhum tipo de relação com Cachoeira.

Ele alegou que, há um ano, não tinha motivos para questionar um pedido de Demóstenes, tido então como "um senador acima de qualquer suspeita". "Eu me sinto traído na minha boa fé, mas fiz aquilo que faço quando recebo indicação de partidos aliados", afirmou. "Ele fez uma indicação que cabia ao seu partido e como ela tinha qualificação, encaminhei o pedido à Secretaria de Governo".

Aécio disse lamentar "profundamente" que um senador da República se disponha a defender interesses de um contraventor. "E só ontem ficamos sabendo disso", lembrou. "Nem eu nem ninguém no Brasil sabia há um ano atrás dessas ligações do senador Demóstenes, a imprensa dava a ele a aura de combatente contra a corrupção, o grande legalista e todo mundo está absolutamente decepcionado", justificou.

O senador tucano concordou que o episódio mostra o risco em atender aos pedidos motivados pelo apadrinhamento político. "Acho que essa cautela tem de ter. O governo de Minas Gerais é a referência hoje no que diz respeito à administração de qualidade, à meritocracia", destacou. Ainda assim, entende que a indicação política não pode, por si só, ser vista como uma ilegalidade: "O que ninguém pode esperar é ser instrumento para interesse de terceiros, de interesses que eu diria do campo do ilícito e não da política, agora o cuidado com a indicação tem de ter", constatou.

Aécio disse que, nesse caso, fez o que faria "10 outras vezes". "Indiquei à secretaria, o currículo era compatível. O brasileiro não tem bola de cristal para imaginar as ligações do seu Demóstenes", reiterou. "Uma indicação do seu Demóstenes credenciava o indicado, um ano se passou e fomos surpreendidos com a ligação desse senador com a contravenção". No seu entender, Demóstenes, "violentou a confiança da Casa". "Há um ano atrás, ninguém poderia imaginar. Eu me sinto traído na confiança. O que fiz foi atender a uma demanda partidária".

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