Aécio quer atrair debate eleitoral a MG, mas sem briga

Ao ampliar leque de aliados, ele diz que não deseja sair do PSDB, mas fazer discussão passar pelo Estado

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2008 | 00h00

Peça-chave de uma dobradinha inusitada em Minas, que deve unir PSDB e PT em torno da disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte, o governador Aécio Neves avisa que não quer deixar o PSDB e não acha prudente elevar a temperatura entre os tucanos, antecipando a briga pela candidatura ao Palácio do Planalto em 2010. Aécio patrocina uma romaria de conversas em seu Estado e mantém encontros País afora por uma razão: quer mostrar à cúpula tucana que o jogo pré-eleitoral terá de passar por Minas.Em português claro, o objetivo pontual é obrigar o colega tucano e governador de São Paulo, José Serra, a negociar com ele a candidatura presidencial. A quem o questiona, o governador diz que trabalha para "criar um espaço novo na política brasileira", que não é de confronto.Ignorando o embate entre tucanos e governistas no Congresso, a cada dia mais agressivo, Aécio argumenta que "2010 não é agora, mas é sempre hora de mostrar que é possível haver diálogo entre as forças políticas, mesmo as que disputam o poder há 20 anos". E aponta Belo Horizonte como o exemplo concreto de que a convergência é não apenas desejável, mas sobretudo possível. Lá, ele e o PT do prefeito Fernando Pimentel fecharam um acordo para lançar Márcio Lacerda (PSB) à corrida municipal.Pimentel disse na sexta-feira, em entrevista ao Estado, que o PT mineiro não criará entraves à aliança. Ressaltou seu respeito por Aécio - "Se o Brasil o elegesse, estaria elegendo um excelente presidente" - e frisou a simpatia de Lula pelo governador. Mas frisou que o presidente jamais poderia apoiá-lo, enquanto estivesse no PSDB. Enquanto isso, o PMDB já fez e refez propostas a Aécio para que se filiasse à legenda, rumo a vôos maiores em 2010. CONVITEO convite para que Aécio trocasse de legenda, com a bênção de Lula, foi público. Aconteceu em um jantar, duas semanas atrás, e irritou o PT nacional. "Ninguém pode reclamar. É nosso direito querer trazer de volta quem já foi nosso", defende-se o líder peemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). Até o PMDB sabe, porém, que Aécio não cogita deixar o ninho tucano. E, no PT, ninguém aceita Lula apoiando o governador, que jamais deixaria de ser visto como um tucano.Em conversas reservadas, Aécio diz que procura apenas se posicionar no campo político-eleitoral. Pondera que essa é a forma que tem de "garantir espaço para jogar". Sua agenda de audiências, seja no Palácio da Liberdade ou no Mangabeiras, onde reside, é o retrato da amplitude da movimentação.Antes de jantar com o PMDB, a aliança com o PT da capital já estava fechada. Depois do encontro com líderes, governadores e ministros do PMDB, ele recebeu a visita de petistas ilustres como o senador Aloizio Mercadante (SP). Não por acaso, mostrou simpatia pela candidatura do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) a prefeito do Rio, na mesma tarde em que abriu seu gabinete à Força Sindical do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP). Por fim, teve conversa com o líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA).PRÉVIASOs aliados de Aécio no PMDB dizem que ele explora o aceno de Lula como opção de candidatura da base governista, mas não ignora que o real motivo do apreço presidencial é outro: rachar o PSDB e enfraquecer a candidatura Serra. Talvez por isso, cuida para não mencionar o governador paulista, que as pesquisas apontam hoje como o nome da oposição mais forte para 2010. Afirma apenas que tem um estilo diferenciado de fazer política, que os amigos classificam de "mais agregador".Sobre o perfil do "candidato ideal" para 2010, Aécio diz que será aquele que demonstrar mais capacidade não apenas de ganhar a eleição, mas sobretudo de governar. Por isso, apresentou-se aos peemedebistas como o candidato pós-Lula, não como o anti-Lula. No PSDB, ele defende a realização de prévias para a escolha do candidato. O governador mineiro argumenta, por fim, que seria muito ruim para o Brasil se o pós-2010 reeditasse o cenário de 1994, 1998 ou mesmo de 2002, em que o vitorioso encontrou um clima radicalizado. "Independentemente de quem seja o candidato, o ideal é que se construa um clima menos beligerante, em que a simples disputa pelo poder dê espaço à construção de um projeto de convergência", disse Aécio ao Estado.

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