Aécio critica centralismo da União e pede pacto federativo

Em mais uma bateria de críticas ao que chamou de "vício do centralismo" da União, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), disse neste sábado, 21, que o País corre o risco de se transformar em breve "num estado unitário". Durante a tradicional solenidade de encerramento da Semana da Inconfidência, na cidade de Ouro Preto (MG), e se dirigindo ao presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), Aécio insistiu na cobrança por um novo pacto federativo, argumentando que sem o restabelecimento da autonomia financeira de Estados e municípios, "o Brasil não se libertará de suas amarras". "Enquanto não nos for possível dispor da parcela justa dos impostos gerados pelo trabalho de todos, o País continuará com as terríveis desigualdades regionais, que se traduzem, dramaticamente, nas desigualdades sociais", discursou Aécio, acrescentando que a idéia do federalismo estava presente "permanentemente" na Inconfidência Mineira. Segundo ele, os líderes "da frustrada revolução libertadora" se inspiravam no sistema norte-americano e "pretendiam que cada uma das capitanias brasileiras, uma vez constituído o Estado nacional, pudesse ser senhora das próprias riquezas sem deixar de contribuir com sua solidariedade com os demais brasileiros".O novo pacto federativo cobrado por Aécio passa pela partilha das contribuições federais com Estados e municípios. Recentemente, a bancada tucana na Câmara incorporou o discurso de do governador de Minas e decidiu condicionar a aprovação da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) à divisão dos recursos arrecadados com Estados (20%) e municípios (10%). Propostas nesse sentido, porém, já foram descartadas pela equipe econômica do governo federal.HerançaPrincipal homenageado da solenidade, o presidente da Câmara comparou a questão a uma repartição de herança. "Quando se trata de repartir herança, algumas vezes, há brigas nas famílias". Chingalia não contestou o argumento do governador tucano. "Na medida em que há repartição de poder, evidentemente tem de haver repartição de recurso", disse. "Creio que a negociação entre os executivos talvez seja a forma mais eficaz, porque nós temos entre outras coisas no Brasil, ainda, e lamentavelmente, a guerra fiscal".Aécio fez questão de observar que o problema é anterior ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Vem desde a Constituinte de 88 numa progressão que se não for interrompida, daqui a pouco, nós estaremos vivendo num estado unitário", concluiu.Além do presidente da Câmara, ministros e governadores estavam entre os principais condecorados da festa de 21 de Abril. Convidados, os ministros Guido Mantega (Fazenda), Carlos Lupi (Trabalho), Paulo Bernardo (Planejamento), não compareceram à solenidade. Apenas Fernando Haddad (Educação) esteve presente.Os governadores do Ceará, Cid Gomes (PSB), da Bahia, Jacques Wagner (PT), e a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Cruzius (PSDB), também faltaram. Compareceram os governadores de Goiás, Alcides Rodrigues (PP), de Sergipe, Marcelo Deda (PT), e da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB). A cerimônia homenageou o arquiteto Oscar Niemeyer, que este ano completa 100 anos de nascimento. O arquiteto enviou uma mensagem, que foi lida durante o evento. Fora LulaSe o palanque das autoridades estava reservado em grande parte para integrantes do governo Lula, na platéia o presidente foi o alvo predileto de manifestantes que concentraram na Praça Tiradentes. "Fora Lula Capacho do Capital"; "Preparar greve geral contra as reformas FMI-Lula", diziam faixas da Liga Operária. Nas grades em frente ao palanque, também foram estendidas faixas (não assinadas) com ataques ao presidente ("Quadrilha de velhacos, a turma do Lula") e ao PT. Segundo a PM, cerca de cinco mil pessoas se concentraram na praça. Não foram registrados incidentes e o público teve um comportamento tímido. O governador mineiro foi poupado e recebeu apoio. "Queremos Aécio presidente", dizia uma faixa, também não assinada. Bandeiras do PSDB e com o nome do governador foram distribuídas entre os populares. O prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo (PMDB), entrou no clima. "Saudamos agora sua ascensão da montanha ao Planalto", disse, se referindo a Aécio.

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