Advogado diz que revendeu imóvel da ex-mulher de Dirceu

Negociação em torno do imóvel de Maria Angela da Silva Saragoça veio à tona no auge do caso mensalão

Eduardo Kattah, de O Estado de S. Paulo,

26 de fevereiro de 2008 | 11h52

O advogado Rogério Lanza Tolentino afirmou, em depoimento à Justiça Federal no processo do mensalão, que revendeu no ano passado ao ex-presidente do Banco Popular, Ivan Guimarães, o apartamento que havia adquirido da ex-mulher do deputado cassado e ex-ministro José Dirceu. A negociação em torno do imóvel de Maria Angela da Silva Saragoça veio à tona em 2005, no auge do escândalo que abalou o primeiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva.   Veja também: Os 40 do mensalão    O apartamento da ex-mulher de Dirceu, em São Paulo, foi adquirido por Tolentino - sócio de Marcos Valério Fernandes de Souza numa consultoria empresarial - por R$ 115 mil, em novembro de 2003.   No depoimento ao juiz federal Alexandre Buck Medrado Sampaio, iniciado na noite de segunda-feira e só encerrado no início da madrugada desta terça, o advogado reafirmou que comprou o imóvel a pedido de Guimarães e que somente após assinar a escritura ficou sabendo que ele pertencia a Maria Angela.   Tolentino disse que mantinha uma "relação camarada" com o ex-presidente do Banco Popular, que lhe ofereceu o apartamento durante um café na sede do PT em São Paulo, em setembro de 2003. Guimarães, segundo o advogado, disse que logo em seguida alugaria o imóvel para sua mãe morar, por R$ 650 mensais. "Não foi favor, foi negócio", garantiu Tolentino, que fez questão de tocar assunto durante o interrogatório.   O advogado confirmou que nunca visitou o apartamento adquirido. Por fim, ele apresentou ao juiz uma escritura, afirmando que revendeu, em 14 de maio de 2007, o mesmo imóvel para uma empresa de Guimarães, por R$ 130 mil.   Durante as investigações sobre o esquema do mensalão, descobriu-se também que a ex-mulher de Dirceu contou com a intermediação de Valério para conseguir um emprego como psicóloga no Departamento e Recursos Humanos do Banco BMG e um financiamento de R$ 42 mil no Banco Rural.   Cheques em branco   Sobre o empréstimo de R$ 10 milhões tomado ao BMG por sua empresa Rogério Lanza Tolentino e Associados, o advogado disse que atendeu a um pedido de Valério e que somente após o estouro do mensalão ficou sabendo que o montante foi contraído para o PT. Tolentino assinou três cheques em branco para o ex-sócio da SMPB. Dois cheques - de R$ 2,7 milhões e R$ 700 mil - foram pagos à corretora Bônus Banval e o terceiro, com o restante dos recursos, foi depositado na conta da 2S Participações, de Valério e sua esposa, Renilda Santiago.   "O desfecho, o desenrolar foge da minha participação no evento", alegou Tolentino, diante dos questionamentos do juiz. O advogado disse que não poderia negar o pedido do empréstimo, pois já era sócio e amigo de Valério e recebeu uma garantia em CDB's da DNA Propaganda no valor de R$ 10 milhões. Apesar da amizade com Valério e os ex-sócios da SMPB - para quem prestava serviços de advocacia desde 1988 -, Tolentino disse que o destino do empréstimo era "um assunto da intimidade da empresa" e não passou pelo crivo jurídico. "Eu tinha a confiança deles (sócios) em casos específicos".   No entanto, o advogado, assegurou que o empréstimo não foi tomado para a compra da Bônus Banval. Visitas e caronas - Ele reafirmou que o deputado José Mentor (PT-SP), relator da CPI do Banestado, recebeu R$ 120 mil como pagamento de pareceres jurídicos contratados por Valério para algumas de suas empresas. O advogado admitiu que arcou com o pagamento ao escritório de Mentor como pessoa física e disse que depois foi reembolsado pela 2S Participações.   Tolentino confirmou que costumava ir a Brasília com Valério nas visitas a parlamentares na Câmara. Salientou, porém, que a SMPB detinha a conta publicitária da Casa. Ele admitiu também que em pelo menos duas oportunidades seguiu de Belo Horizonte para a capital federal de "carona" num avião do Banco Rural. Mas negou relações de intimidade com os atuais dirigentes da instituição financeira.   O advogado confirmou ainda que viajou duas vezes a Portugal - em dezembro de 2004 e janeiro de 2005 - com Valério. As viagens, segundo ele, tinham objetivos comerciais envolvendo a Telemig Celular e a Portugal Telecom. Tolentino garantiu que o então sócio da SMPB nunca se apresentou como "Marcos Valério do PT".

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