Advogada reforça tese de que Valério armou esquema

Ele teria forjado inquérito para desmoralizar fiscais que multaram seu amigo

Fausto Macedo e Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 00h00

Investigada pela Operação Avalanche, a advogada Eloá Leonor da Cunha Velloso tornou-se peça-chave na investigação federal sobre suposto esquema de espionagem e abertura de inquérito forjado contra fiscais da Fazenda estadual. Eles autuaram em R$ 104,54 milhões a Cervejaria Petrópolis - cujo presidente, Walter Faria, é amigo do empresário Marcos Valério, caixa 2 do mensalão e alvo principal da Avalanche.Interrogada pela PF, que a prendeu em Belo Horizonte no dia 10, Eloá reforçou suspeitas dos investigadores sobre Valério ao dizer que ele sabia da existência de um inquérito - considerado forjado pelos federais - para apurar suposta cobrança de propina por fiscais da Receita. Segundo ela, "Marcos Valério e Rogério Tolentino (sócio de Valério) tinham conhecimento da instauração do inquérito policial".Eloá disse acreditar "que houve pagamento de propina aos policiais federais que deram ensejo à instauração do inquérito policial na delegacia da PF em Santos, pois no seu entendimento ninguém faria nada de graça". "O dinheiro da propina, se houve, pode ter saído da Cervejaria Petrópolis". Eloá foi indiciada pela PF por formação de quadrilha. Ela ressaltou no depoimento que o objetivo de Valério e Tolentino, com a abertura do inquérito, "era coibir que os fiscais estaduais (Antônio Carlos Moura e Eduardo Fridman) continuassem extorquindo empresários em São Paulo, notadamente a Cervejaria Petrópolis".Segundo a PF, porém, o verdadeiro motivo de Valério era livrar Faria do cerco dos fiscais provocando inquérito policial contra eles. A investigação indica que dois delegados da própria PF em Santos receberiam R$ 3 milhões de propina para "desmoralizar e desqualificar" os auditores. Os delegados - Antônio Vieira Hadano e Silvio Salazar - estão presos. Eles negam envolvimento no caso.Eloá esclareceu à PF que a "obrigação a ser cumprida" fazia referência à promessa de um agente federal aposentado e de um ex-investigador da Polícia Civil "no sentido de provar que os fiscais estavam coagindo as empresas". A investigada trabalha no escritório do advogado Ildeu da Cunha Pereira, em Belo Horizonte, também é investigado pela Avalanche. Ele teria sido o elo entre a Petrópolis e os delegados federais. A PF apurou que Cunha foi apresentado por Valério ao dono da cervejaria. Segundo o depoimento, Eloá "acredita que Walter Faria tinha conhecimento da instauração do inquérito pois este era o maior interessado". Interrogado, Valério admitiu que havia pelo menos nove meses trabalhava como consultor empresarial da Petrópolis. Ele afirmou ainda estar ciente do valor apreendido com Cunha, mas que não tinha conhecimento de que ele serviria para suposto pagamento de propina. Seus contatos com o advogado, segundo ele, eram sobre negócios de importação.A Cervejaria Petrópolis informa que "não participou, por ação ou omissão, de qualquer ingerência de pessoas na administração pública, na Polícia Judiciária e/ou no Poder Judiciário,Estadual ou Federal, para obter vantagem indevida".O defensor de Marcos Valério, Leonardo Marcelo, avalia que o depoimento de Eloá não é comprometedor para seu cliente, mas sim para Cunha. O criminalista destacou que o empresário, ao ser ouvido pela PF, informou ter tomado conhecimento da existência do inquérito. FRASESEloá VellosoInvestigada na Avalanche"Marcos Valério e Rogério Tolentino (advogado e sócio de Valério) tinham conhecimento da instauração do inquérito policial""Houve pagamento de propina aos policiais federais (...), pois no seu entendimento ninguém faria nada de graça""Walter Faria (dono da Cervejaria Petrópolis) tinha conhecimento da instauração do inquérito pois era o maior interessado""O dinheiro da propina, se houve, pode ter saído da Cervejaria Petrópolis"

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