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Advertências não faltam

Quem convencer o eleitor de que vai devolver o emprego sai em vantagem

João Domingos, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2016 | 04h00

Todo partido e todo aquele que estiver planejando disputar a Presidência em 2018, e até os que dizem que não estão pensando nisso, como tem reiterado o presidente Michel Temer, devem levar em conta a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Não que o Brasil vá pender para a direita, quando se pensa nas disputas do campo político, o que assanha o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Ou que, em reação à eleição de Trump, dará uma guinada rumo à defesa de bandeiras modernas, baseadas no desenvolvimento sustentável, como pensam alguns sonháticos. Ou até que garantirá a eleição do ex-ministro Joaquim Barbosa, agora independente, livre, leve e solto, para fazer o que quiser, como ele mesmo diz. 

O que a eleição de Donald Trump deixa para partidos e indivíduos no Brasil, hoje engajados ou não na política, deve ser buscada no recado que o democrata conseguiu passar para o eleitor, o de alguém capaz de tirá-lo da situação em que se encontra, resgatar-lhe a autoestima, não importando o tipo de diatribe que fala. 

Ninguém deve duvidar de que a sociedade brasileira começou a mostrar em 2013 um comportamento diferente do que vinha adotando, quando ocupou as ruas e iniciou uma série de protestos, puxados pelo grito contra o aumento de R$ 0,20 no preço da passagem de ônibus. Depois a manifestação cresceu e chegou aos serviços públicos: saúde, educação, transporte e segurança pública. Logo passou a condenar os gastos excessivos com os estádios da Copa da Fifa de 2014 e contra certas atitudes do Congresso, obrigando a Câmara a retirar da pauta a emenda constitucional que reduzia poderes do Ministério Público para tocar investigações. Esse recuo permitiu, por exemplo, que o MP montasse, com a Polícia Federal, a força-tarefa da Operação Lava Jato. Força-tarefa que descobriu o que descobriu.

Como se vê, os protestos tinham os mais variados alvos. As lideranças eram difusas, o que causou perplexidade nos políticos tradicionais. Pensadores mais à esquerda acham que foi naquele momento que movimentos de direita – de novo, a mesma badalada história – começaram a ficar hegemônicos nas ruas, o que resultaria no apoio de milhões ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Como o brasileiro, o eleitor dos Estados Unidos vem de uma crise gravíssima na área do emprego. Trump conseguiu dizer a essas pessoas que devolveria o trabalho a elas, e que poderiam voltar a bater no peito e dizer que eram norte-americanos.

O que o eleitor brasileiro tem dito desde 2013, escancarado agora em 2016, é que ele não está nem aí para a questão do discurso ideológico. O que as manifestações de três anos e pouco e o resultado das urnas nas eleições municipais deixaram claro é que o eleitor quer do candidato que ele dê um jeito de melhorar a sua vida. Cansou-se de ruas bloqueadas por minorias que põem fogo em pneus, do caos na educação, saúde, transporte, segurança e tantos outros serviços. Em suma, o eleitor cansou de ser maltratado.

Para um País que tem 12 milhões de desempregados, com projeção de que cheguem a 14 milhões, aquele que fizer um discurso convincente sobre a devolução do emprego que arrasa com qualquer família, e oferecer alguma melhoria nos serviços públicos, tem tudo para ganhar a eleição. Não interessa se é João ou se é José. Se pertence a um grande partido ou a uma legenda insignificante.

Não é à toa que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso insiste a todo instante que o PSDB precisa recuperar o “social” do nome. Se não recuperar, não adianta ter um caminhão de bons candidatos. É só aparecer um Trump tropical por aí, com a promessa de que vai melhorar alguma coisa para o cidadão, que leva.

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