Adiamento da prova da UFRJ provoca abstenção recorde

O vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) registrou o maior número de faltosos da sua história. Mais de um quarto dos candidatos deixou de comparecer - dos 56.016 inscritos, 15.622 não fizeram a prova. O índice de abstenção foi de 27,95%, quando a média histórica é de 11%.O coordenador de vestibular da instituição, Cesar Scelza, explicou o fracasso, responsabilizando o adiamento da prova, cancelada em outubro do ano passado após tumultos e protestos por conta da greve de professores. "A UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) já encerrou o processo de seleção e fez até matrícula. Acredito que alunos do curso de Direito, que na UERJ é muito bom, tenham desistido de fazer o nosso concurso. Isso pode ter ocorrido com outras carreiras", afirmou.Scelza disse que a instituição já esperava índice maior de abstenção do que nos anos anteriores. "Mas o que aconteceu hoje me surpreendeu. Eu não esperava um índice desses."O vestibular da UFRJ enfrentou outro problema: a data das provas coincidiu com os exames de universidades de Estados em que a instituição fez seleção pela primeira vez. Foi o caso de Minas Gerais e Paraíba. Dos 801 inscritos para fazer prova em Belo Horizonte, somente 373 compareceram. Em Campina Grande, 65 dos 106 candidatos faltaram. O índice total de abstenção nos locais fora do Estado do Rio (houve prova também em São Paulo e Distrito Federal) foi de 53%.Hoje algumas salas da UFRJ tinham apenas quatro candidatos fazendo prova. Na sala 504 do prédio da reitoria, dos 40 inscritos, 14 faltaram. Na sala 509, apenas nove faziam o teste. Quinze pessoas deveriam estar ali. "Trabalho nos vestibulares desde 1987, quando deixamos de participar do Unificado, e nunca vi nada assim. Têm salas com quatro alunos. Dá até tristeza", disse a chefe de região na reitoria, Cristiana Lobato.AluguelAlém da abstenção, a comissão de vestibular ainda foi surpreendida com a cobrança dos aluguéis das salas para a realização das provas, o que antes não ocorria. A Universidade Veiga de Almeida pediu R$ 25.500 e a Universidade Estácio de Sá, R$ 28.440 para liberarem suas salas na Barra da Tijuca. Até uma escola pública, o Colégio Estadual João Alfredo, exigiu R$ 500 para emprestar suas instalações. Os dados são da assessoria de imprensa da UFRJ. A instituição teve de desembolsar no total R$ 700 mil para o novo concurso.Apesar de a nova prova ter custado caro à instituição, parte dos alunos comemorou o adiamento. Estudante do Colégio de Aplicação da UFRJ, Letícia Hastenreiter, de 18 anos, disse que sentiu dificuldade ao fazer a prova de outubro, cancelada posteriormente. "Estava há três meses sem aula por causa da greve. Eu olhava algumas questões e nunca tinha visto aquelas matérias", conta.Letícia fez prova para medicina no campus da Praia Vermelha, na zona sul, e disse que ontem estava mais bem preparada. "Meus professores se empenharam. Tive aulas à tarde para recuperar o tempo perdido", contou a menina, que vestia camiseta com a inscrição "Eu Adiei". Já a paulista Elene Koulklanakis, de 21 anos, sentiu-se prejudicada com a medida. "Não pude pagar cursinho por esses três meses de adiamento. Acho que fiquei defasada", disse a estudante, que achou a prova mais difícil que a primeira. TranqüilidadeA prova de hoje não registrou incidentes, ao contrário do exame de 28 de outubro, realizado graças a uma liminar judicial, quando o concurso foi marcado por cenas de violência e nove pessoas ficaram feridas. Traumatizada, a estudante Natale Marcello de Figueiredo, de 17 anos, chegou duas horas antes do início dos testes ao Centro de Matemática, no campus da Ilha do Fundão, na zona norte . "Em outubro tive de passar por um corredor de policiais para entrar no prédio. Eu chorava muito, com medo de perder a prova. Na sala, eu ouvia o barulho da confusão. A tensão foi grande", lembra. Ela elogiou a decisão de anular o teste. "Não sei como eu consegui terminar aquela prova".

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