Adiada para semana que vem votação da CLT

Uma falha no sistema eletrônico de votação da Câmara, que será investigada pela direção da Casa, pôs abaixo uma operação de governo, comandada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, para arrebanhar apoio ao projeto que altera a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).O resultado concreto da pane foi mais um adiamento do exame da proposta, que só deverá ser submetida a voto na próxima semana.Os líderes aliados declararam obstrução e recomendaram que suas bancadas abandonassem o plenário. A oposição, por sua vez, uniu-se de novo ao PMDB contra a mudança na CLT, mas não conseguiu garantir a presença mínima de 257 deputados em plenário para rejeitar o projeto.Tudo porque, no exato momento em que o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), anunciaria o resultado da votação, a pane fez sumir os registros. A falha técnica, que todos consideram suspeita, deixou em pânico os líderes do PFL, PSDB e PPB, que contavam com uma vitória, ainda que por pequena margem de vantagem.Mais do que a ausência dos apressados, que registraram o voto e seguiram rumo ao aeroporto, de volta a seus Estados, o que assustou os líderes governistas foi a convocação para uma nova votação, por chamada nominal.Enquanto o sistema eletrônico registra cada voto, e só exibe os nomes no placar final, simultaneamente, a chamada nominal obriga o parlamentar a declarar publicamente seu voto, do microfone de apartes.Um ?brinde? para as esquerdas e o PMDB, que podiam exibir o voto em defesa do trabalhador, e um castigo para os governistas preocupados com a má repercussão das imagens da TV Câmara em suas bases eleitorais.Daí a obstrução comandada pelos líderes governistas para não expor os liderados. Àquela altura, praticamente todo o governo já havia trabalhado para virar o voto dos rebeldes da base.Os mesmos que, na madrugada desta quarta, forçaram os aliados a obstruir a votação e abandonar o plenário para evitar a derrota.Na mira dos ministros Francisco Dornelles, do Trabalho, e Pedro Malan, da Fazenda, os dissidentes do PMDB e PTB, que, na véspera, engrossaram maciçamente a ala da oposição, além de pefelistas descontentes com a proposta.O placar final registrou um ganho pequeno: 197 votos contrários, quando 218 haviam rejeitado a proposta na madrugada, com 223 deputados em plenário. Mas o adiamento dá ainda mais prazo ao governo para prosseguir com sua operação de emergência e aprovar as mudanças na CLT.Nesta quarta-feira, o próprio presidente convocou ministros políticos, representantes da equipe econômica, governadores e até o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, a entrar no corpo-a-corpo junto aos deputados.No trabalho de convencimento, o argumento que mais pesou foi pragmático: quem votasse contra o Planalto não contaria com a boa vontade do governo na liberação de recursos para bancar as emendas orçamentárias destinadas a atender às bases eleitorais dos deputados.A estratégia de enfrentar no voto as resistências à proposta que estabelece que acordos e convenções entre empresários e sindicatos de trabalhadores terão efeito de lei, foi definida nesta quarta-feira cedo, em reunião no Palácio da Alvorada.A avaliação dos líderes e articuladores políticos foi que o projeto virou uma questão de honra para o governo. Era preciso reagir e lutar até para mostrar força, porque um governo acuado entraria fragilizado em uma segunda batalha, que já está em curso e pode custar ao governo uma perda de receita estimada em R$ 3,5 bilhões no Orçamento de 2002: a correção da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).Depois dos tumultos e da troca de ofensas e agressões físicas que marcaram a sessão desta terça-feira, alguns líderes da base chegaram a apelar para que Fernando Henrique retirasse a urgência da proposta. ?Vamos votar; eu quero saber quem está comigo, com quem posso contar?, decidiu o presidente.?O PSDB continua votando, porque tem a convicção de que a proposta é boa para o trabalhador e para o País, mas contanto que essa disposição de voto se dê na busca da vitória e não como um gesto inútil?, ponderou o líder tucano.Foi decidido, então, que todo o governo seria mobilizado a trabalhar para aprovar a mudança na CLT.

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