Acusados recorrem aos mais renomados e caros advogados

Até agosto defesa já teria custado entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões

Eduardo Nunomura, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Logo após o julgamento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) transformou em réus os 40 acusados no escândalo do mensalão, em agosto, uma estimativa dava conta de que àquela altura eles já tinham gasto entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões com advogados. "É um despropósito, uma bobagem lançada como verdade e, o que é mais grave, sem nenhuma base", critica Alberto Zacharias Toron, que defende o deputado João Paulo Cunha (PT).O ministro Marco Aurélio Mello, juiz há quase 30 anos e desde junho de 1990 no Supremo, ficou pasmo com as cifras: "Nós, assalariados, não teríamos como fazer frente a isso. Mas não sei se os honorários chegaram a esses valores astronômicos." No mundo do Direito, é tabu divulgar cifras. Segredo de Estado. "Sou profissional e tenho de estar remunerado de acordo com o que o cliente pode pagar", despistou José Carlos Dias, defensor de dirigentes do Banco Rural e uma referência da advocacia brasileira.Advogados falam com orgulho dos clientes que defendem de graça. O ex-ministro da Justiça José Carlos Dias e o advogado Tales Castelo Branco subiram às tribunas em nome de presos políticos. Livraram operários e artistas das garras da ditadura. Daí a irritação de Dias quando em entrevista a uma rádio lhe perguntaram quanto estava ganhando. "Se respondesse estaria praticando uma atitude aética, mas essa sua pergunta é igualmente aética", reagiu. Castelo Branco pensa igual: "É questão privada do advogado e do cliente, devo alguma satisfação à Receita Federal e não à imprensa."INVESTIMENTOCasos rumorosos, daqueles que atraem a atenção da mídia, são vistos como investimento pelos escritórios de advocacia. Ganhar uma causa significa ampliar a carteira de clientes no futuro. Mesmo que nos processos criminais a liberdade da pessoa esteja em jogo e, portanto, muitos gastem fortunas para se defender. Quando há políticos ou o crime tem repercussão, advoga-se até de graça.No julgamento do mensalão, dividiram a tribuna do STF alguns dos mais experientes profissionais do País e outros que ainda vão ganhar projeção. Há desde promotores e juízes aposentados até discípulos de criminalistas consagrados. José Luís Oliveira Lima, de 41 anos, herdou do tio José Carlos Dias o cliente mais famoso do processo, o ex-ministro José Dirceu.Para produzir a defesa preliminar, Oliveira Lima dedicou quatro meses, na maior parte do tempo concentrando-se ouvindo Mozart. Imaginava que conseguiria até a rejeição total da denúncia - José Dirceu virou réu nos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa. Dias antes do julgamento, Luiz Fernando Pacheco, de 33 anos, se via repetindo um mantra, a defesa do deputado José Genoino. Na tribuna, saiu tudo diferente. Mas quando os ministros decidiram, de forma unânime, livrar os petistas do crime de peculato (desvio de dinheiro público), Pacheco não se conteve. "Cumprimentei o José Luís e o Arnaldo Malheiros efusivamente. Confesso que derramei uma lágrima de emoção e de reconhecimento pelo trabalho."Arnaldo Malheiros Filho, que conhece pessoalmente todos os ministros do STF e já defendeu dezenas de casos na Corte, compreende essa situação e lembra que até Ruy Barbosa dizia que ninguém sobe à tribuna indiferente. "É um momento de tensão, de estresse e de emoção. Você tem de falar sem ler, não de improviso, mas tampouco decorado", disse. Sua defesa de Delúbio Soares foi considerada pela bancada dos novatos como uma aula de Direito.LOBBYO ex-deputado Roberto Jefferson, agora réu nos processos de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, gostou do comportamento de seu advogado, o gaúcho Luiz Francisco Corrêa Barbosa, e repudiou a de outros. "Tenho horror de advogado que se rasteja aos pés da toga, que já chega querendo fazer advocacia do lobby, de agradar ministro. Quem muito abaixa, o fundo mostra." Jefferson voltou à advocacia depois de perder os direitos políticos. Amigos sugeriram que fizesse a auto-defesa no caso do mensalão. "Temi. A Corte podia não ver com bons olhos, ela é muito formal. Decidi não politizar de jeito nenhum", disse. Mas como criminalista gostaria de participar do julgamento histórico? Quem gostaria de defender? "Marcos Valério. Era o operador e virou o grande bandido." Marcelo Leonardo, ex-presidente da Ordem dos Advogados de Minas, defensor de Marcos Valério e muito elogiado pelos colegas paulistas e mineiros, concorda: "Foi dado ao meu cliente uma importância que ele não tem, talvez até para tirar o foco da classe política."

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