Acusados de matar pataxó vão a júri 5 anos depois do crime

Depois de quase cinco anos, quatro jovens de classe média de Brasília serão levados a julgamento pela morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado quando dormia em um ponto de ônibus. O júri ocorrerá a partir de terça-feira, apesar das ameaças de adiamento causadas pela saída do caso da promotora Maria José Miranda. "Não existem motivos para isso", diz a presidente do Tribunal do Júri de Brasília, Sandra de Santis, confirmando a realização da sessão, que terá segurança reforçada e a provável presença de manifestantes indígenas. Eron Alves de Oliveira, Antonio Novély Cardoso de Vilanova, Max Rogério Alves, todos à época com 19 anos, Tomás Oliveira de Almeida e seu irmão G.N.A.J, que tinham respectivamente 18 e 16 anos, foram detidos em 20 de abril de 1997, pouco depois de terem ateado fogo ao índio. Galdino dormia numa avenida movimentada, depois de ter ido a Brasília participar da comemoração do Dia do Índio, em 19 de abril. Morreu no dia seguinte, com 95% do corpo queimado.Batalha judicialComeçou ali a batalha judicial para levar os acusados a júri popular. Maria José conseguiu seu intento no ano passado - só G. escapou do julgamento, porque era menor de idade na época do crime. O empenho da promotora tornou ainda mais surpreendente seu pedido de afastamento do caso, anunciado só oito dias antes da data do júri. Ela será substituída pelo colega Maurício Miranda, que terá a obrigação de ler, até pouco antes do início da sessão, as 3 mil páginas do processo. "Saio exclusivamente porque estou cansada; tiro um peso enorme das minhas costas", afirmou a promotora na semana passada. Visivelmente nervosa, Maria José revelou a intenção de deixar Brasília, pelo menos durante o julgamento, para não ter de dar satisfação a ninguém sobre o processo. "Muitas pessoas acham que estou perseguindo os rapazes. Não é verdade, quem acusa não sou eu, e sim o Ministério Público." De acordo com uma fonte do Ministério Público, Maria José sofria perseguições por parte de Sandra de Santis - conhecida pela discrição e sempre lembrada como a mulher do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello. "Ela foi impedida de circular na sala e até mesmo no banheiro dos jurados", revelou um colega. "Maria se sentiu pressionada, acuada." A promotora preferiu não comentar o assunto, dizendo que não recebeu ameaças ou pedidos para sair de cena. A Assessoria de Imprensa da juíza não confirmou a história, mas disse que, pela lei penal, os jurados devem ficar isolados antes da decisão.STJA suposta rivalidade entre Maria José e Sandra teve início em 1997, quando a juíza desclassificou a tese de homicídio triplamente qualificado apresentada pela promotora. Sandra classificou o crime como lesão corporal seguida de morte - ilícito que não é julgado por tribunais do júri. Em fevereiro de 1999, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reformou a decisão. As sessões diárias do julgamento dos quatro acusados têm hora para começar e para terminar. Sandra decidiu limitar as sessões ao período entre 9 e 20 horas. O objetivo é permitir o descanso dos jurados e da equipe de profissionais que trabalhará no tribunal já que, pela previsão, o julgamento vai durar três dias. O esquema de segurança montado para o julgamento conta com cerca de 80 homens da Polícia Militar e do Tribunal de Justiça.

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