Acusado tenta negociar lote onde Dorothy morreu

Fazendeiro que seria um dos mandantes do crime quer trocar área com o Incra; procurador vê ilegalidade

Carlos Mendes, O Estadao de S.Paulo

11 de novembro de 2008 | 00h00

O fazendeiro Regivaldo Galvão, o Taradão, acusado de ser um dos mandantes do assassinato da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, em Anapu, no Pará, formalizou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) proposta de troca de área de 2,5 mil hectares de floresta, que ele diz ser de sua propriedade, por 500 hectares de pasto de parte do Lote 55 da Gleba Bacajá, onde a freira foi morta. O Lote 55, segundo o coordenador do Incra na região, Ulaí Batista Nogueira, pertence à União e não pode ser negociado porque está sob disputa judicial. O procurador da República Felício Pontes Júnior anunciou que pedirá à Polícia Federal abertura de inquérito para apurar o caso, afirmando ser ilegal a negociação de terra pública. "Quem faz isso tem de ir para a cadeia", ataca ele. A proposta de Galvão, feita no dia 28 de outubro, durante reunião na sede do Incra de Altamira e cuja cópia da ata foi obtida pelo Estado, poderá provocar uma reviravolta no caso Dorothy, porque o fazendeiro, único dos cinco acusados que até agora não foi julgado, sempre alegou não ter motivo para mandar matar a freira em razão de não ter interesse pela área que agora pretende negociar.Chegou a declarar que uma parte desse lote havia sido vendida para Vitalmiro de Bastos Moura, o Bida, outro acusado de ser o mandante do assassinato. Bida foi condenado no primeiro julgamento e absolvido no segundo, em maio deste ano.Galvão aguarda julgamento em liberdade graças a uma série de recursos na Justiça. Os pistoleiros que confessaram ter matado a freira, Rayfran das Neves Sales e Clodoaldo Carlos Batista, e Amair Feijoli da Cunha, acusado de ser o intermediário, estão presos.MOTIVOSAs freiras Rebeca Spires e Julia Depweg, que durante 30 anos trabalharam com Dorothy na Amazônia, dizem não ter dúvida de que o fazendeiro sempre manteve o controle do lote, tendo, portanto, "motivos para encomendar o assassinato da missionária". Para ambas, Dorothy "incomodava muito" os fazendeiros da região por constantemente denunciar a devastação de terras públicas, grilagem e extração ilegal de madeira. Galvão rebate a afirmação de que a terra seja pública ou que a tenha grilado. "Fiz benfeitorias nessa área e tenho como provar", diz o fazendeiro, acrescentando ter uma "idéia antiga" de construir escolas e posto médico no local em benefício da comunidade.Hoje, na Gleba Bacajá, está sendo implantado, três anos depois de sua morte, o projeto de desenvolvimento sustentável (PDS) defendido por Dorothy Stang como modelo ideal de reforma agrária na Amazônia.

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