Acusado, Talvane envolve ex-governador do AL no caso Ceci Cunha

Denunciado como mandante do assassinato da ex-deputada e três familiares diz em julgamento que Manoel de Barros tinha divergências com ela

Tiago Décimo, enviado especial de O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2012 | 22h47

MACEIÓ - A defesa do ex-deputado Pedro Talvane Luis Gama de Albuquerque Neto, apontado como o mandante da chacina que matou a deputada Ceci Cunha e três familiares, afirmou na terça-feira, 17, durante o julgamento do caso, que a apuração do crime foi falha por não considerar outras hipóteses para os assassinatos. Em seguida, envolveu no episódio o nome do ex-governador de Alagoas, Manoel Gomes de Barros (PSDB). O depoimento, o mais aguardado na fase de interrogatórios dos réus, durou mais de 4 horas e 20 minutos.

 

O acusado alegou não ter motivos para assassinar a ex-colega de Câmara, da qual era suplente. Disse, ainda, que não era amigo de Ceci, mas que mantinha com ela uma relação de respeito. "Ela me convidou para ir ao casamento da filha dela - e só não fui porque tinha outro compromisso já agendado", conta. "Depois da campanha de 1998, ela parou de me cumprimentar, mas essas coisas são normais. Essas intriguinhas, tão comuns na política, jamais seriam motivo para um crime desses."

 

Talvane afirmou - sem acusar - que havia divergências entre Ceci Cunha e outros políticos, entre eles o ex-governador Manoel Gomes de Barros (PSDB), que também não conseguiu se reeleger em 1998.

 

"Inicialmente, ela aceitou ser candidata a vice (na chapa de Barros), mas depois desistiu", contou. "O problema é que Mano (como o ex-governador é conhecido) só ficou sabendo disso pela televisão. Ele chegou a retirar a sua candidatura de governador, e só depois retomou a campanha. Daí, quando saiu o resultado da eleição (em que perdeu para Ronaldo Lessa, do PSB), veio um período de muita raiva contra a doutora Ceci. Eu mesmo presenciei alguns rompantes dele", insinuou Talvane.

 

Discussão. O interrogatório foi marcado por uma severa discussão entre o advogado do acusado, Welton Roberto, e o juiz federal André Luís Maia Tobias Granja, que preside o julgamento. O bate-boca teve início depois que Roberto começou a apresentar, em telão instalado no auditório, reportagens relativas ao crime publicadas em jornais locais.

 

Uma apontava como principal suspeito de ser o mandante o ex-governador Mano. Em outra havia a informação de que Albuquerque não seria indiciado pelo crime. Quando pediu a exibição de uma terceira reportagem a acusação protestou - e o juiz acolheu - alegando que o material não era prova e que não estava servindo de base para perguntas. "Este depoimento é para que o acusado possa se defender", disse o juiz Granja.

 

O advogado de Talvane avisou: "Vamos demonstrar que tudo foi uma armação para incriminar o deputado". A polícia, segundo ele, "achou, por comodidade, por ele ser o primeiro suplente, que ele era o culpado".

 

Talvane foi apontado como principal suspeito por ter herdado a vaga de Ceci na Câmara. A deputada, que havia sido reeleita em outubro, pelo PSDB, foi morta no dia de sua diplomação, 16 de dezembro. Tinha sido a terceira mais votada da coligação.

 

Outro que citou o ex-governador no interrogatório foi Jadielson Barbosa da Silva, um dos quatro acusados de executar o crime. De acordo com ele, Ceci havia recebido R$ 2 milhões de Barros para ser candidata a vice na chapa - e não teria devolvido depois de desistir da candidatura.

 

"Vamos apresentar pontos do processo que ainda não foram bem explorados na fase de alegações (previstas para hoje)", afirma o advogado Roberto. O julgamento deve terminar hoje, depois de acusação e defesa apresentarem as alegações finais e os jurados definirem se os acusados são culpados ou inocentes.

 

Todos os cinco acusados de matar a deputada Ceci Cunha - Talvane, Jadielson, Alécio César Alves Vasco, José Alexandre dos Santos e Mendonça Medeiros da Silva - alegaram inocência e deram álibis para o momento do crime. De acordo com os relatos, eles estavam em Arapiraca, a 128 km da capital alagoana, ou seguindo para a cidade no momento da chacina. Também em comum, os réus, durante os depoimentos, deram as respostas "não lembro", "não sei" e "não conheço" dezenas de vezes quando interrogados pela acusação.

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