Acusado de racismo, professor presta depoimento de 5 horas

A sindicância sobre um professor da Universidade de Brasília que usou o termo ?crioulada? na sala de aula ameaça não sair do lugar. Acusado de racismo, o professor Paulo Kramer, do curso de Ciência Política, prestou depoimento nesta quarta-feira. Num caso normal, depois que o acusado responde as alegações que pesam contra ele, as autoridades encarregadas anunciam veredicto. Mas este caso ainda deve prolongar-se por meses. Em silêncio desde que a denúncia foi formalizada, Kramer disse que usou o termo ?crioulada? no contexto de uma discussão sobre ação afirmativa nos Estados Unidos. ?Não me dirigia a ninguém?, esclareceu, para repetir uma verdade clássica: ?Comunicação não é o que você fala, mas o que o outro entende.? Mas Kramer recordou que, no dia seguinte, ao receber e-mail de um estudante que se dizia ofendido, na mesma hora pediu desculpas. Ele disse suspeitar que a denúncia contra ele não tem origem ?em indignação pessoal, mas numa agenda política oculta?. Embora seja uma alegação muito conveniente, e a denúncia tenha vários aspectos a ser considerados, a agenda política é real. Durante um seminário na universidade, um militante anti-racista foi desmascarado ao montar uma armadilha para desmoralizar uma professora solidária a Kramer. Durante o depoimento, surgiram algumas questões variadas. Kramer foi questionado sobre comentários feitos em classe, como ?mulher que estuda muito fica feia? ou ?Hanna Arendt (cientista política) era mal amada? ou ainda ?Rousseau (Jean-Jacques Rousseau) era um gayzinho?. Um aluno acusou o professor de defender uma escola de pensamento chamada ?determinismo climático?, porque teria dito que ?não há desenvolvimento em países onde não cai neve?. Alegando que era uma audiência sobre racismo, Kramer não respondeu a tais questões, mas perguntou: ?Existem doutrinas tabus na Universidade?? Formada por um reitor que se elegeu fazendo campanha por cotas, a comissão de sindicância encarregada do caso é formada por três membros . O professor Alexandre Bernardino, o presidente, não comenta as questões raciais nem em teoria. Já o professor José Leonardo Ferreira, da Física, militante do movimento negro da juventude, se diz ?100% a favor de cotas?. Para Carla Teixeira, da Antropologia, os professores têm se omitido nesses casos ?e é hora de mudar esse comportamento?. Ela lembra que, há pouco, um aluno negro foi reprovado e conseguiu rever sua nota numa campanha política onde até a Central Única dos Trabalhadores (CUT) se mobilizou para ajudá-lo. ?Ele acusava um professor de ter dado nota baixa por racismo. Mas outros quatro estudantes foram reprovados no mesmo semestre. Ele era o único negro?, relatou a professora.

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