Acusado de matar freira tenta negociar área de crime

O lote 55, segundo o coordenador do Incra na região, Ulaí Batista Nogueira, pertence à União

Carlos Mendes, de O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2008 | 17h09

O fazendeiro Regivaldo Galvão, o Taradão, acusado de ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, em Anapu, no sudoeste do Pará, formalizou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) uma proposta de troca de uma área de 2,5 mil hectares floresta, que ele diz ser de sua propriedade, por 500 hectares de pasto de parte do lote 55 da Gleba Bacajá, onde a freira foi morta. O lote 55, segundo o coordenador do Incra na região, Ulaí Batista Nogueira, pertence à União e não pode ser negociado porque está sob litígio judicial. O procurador da República, Felício Pontes Júnior, anunciou que pedirá à Polícia Federal a abertura de inquérito para apurar o caso, afirmando ser ilegal a negociação de terra pública. "Quem faz isso tem que ir para a cadeia", ataca o procurador.  A proposta de Galvão, feita no dia 28 de outubro passado, durante reunião na sede do Incra de Altamira e cuja cópia da ata foi obtida pelo Estado, poderá provocar uma reviravolta no crime, porque o fazendeiro, único dos cinco acusados que até agora não foi julgado, sempre alegou não ter motivo para mandar matar Dorothy em razão de não ter qualquer interesse pela área que agora pretende negociar. Chegou a declarar que uma parte desse lote havia vendido para Vitalmiro de Bastos Moura, condenado na primeira vez, mas absolvido no segundo julgamento como acusado do crime.  As freiras Rebeca Spires e Julia Depweg, que durante trinta anos trabalharam com Dorothy na Amazônia, dizem não ter dúvida de que o comportamento agora revelado pelo fazendeiro demonstra que ele sempre manteve o controle do lote, tendo, portanto, "motivos para encomendar o assassinato da missionária". Para ambas, Dorothy "incomodava muito" os fazendeiros da região por vir constantemente denunciando a devastação de terras públicas, grilagem de terra e extração ilegal de madeira.  Galvão rebate que a terra seja pública ou que a tenha grilado. "Fiz benfeitorias nessa área e tenho como provar", diz o fazendeiro, informando alimentar uma "idéia antiga" de construir escolas e posto médico no local em benefício da comunidade. Hoje, na Gleba Bacajá, está sendo implantado, três anos depois de sua morte, o projeto de desenvolvimento sustentável (PDS) defendido por Dorothy Stang como modelo ideal de reforma agrária na Amazônia.

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