Acusação é 'falso moralismo', diz deputado sobre transformista

Giannazi é acusado por quebra de decoro após organizar evento na Assembléia com participação da artista

Marta Cury Maia

26 de novembro de 2007 | 21h02

O deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) se defendeu nesta segunda-feira, 26, da acusação de ter quebrado o decoro parlamentar  após a apresentação de um transformista, no Plenário D. Pedro I, num evento organizado por ele no lançamento da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Comunidade GLBTT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros), no dia 24 de outubro. Segundo Giannazi, Para Giannazi, trata-se de "falso moralismo" e "intolerância com a diversidade sexual". "Se fosse uma passista com roupas íntimas, aí tudo bem. Se fosse uma bailarina, tudo bem", disse.     A acusação de quebra de decoro foi feita pelo deputado  estadual paulista Waldir Agnello (PTB). A posição do deputado significa uma volta às trevas, à Idade Média, na questão comportamental, no sentido da intolerância", disse o deputado do PSOL. Ele ainda não foi convocado para apresentar sua defesa.Giannazi afirmou que será um "contra-senso" a Assembléia puni-lo. "Quebra de decoro é corrupção, é clientelismo, é não investir em educação."   Giannazi explicou que a frente parlamentar que ele preside foi criada para combater a homofobia e propor leis para coibir o preconceito. "O Estado de São Paulo é um dos mais homofóbicos", afirmou.   O transformista apareceu primeiro com uma capa preta. Por baixo, um minúsculo biquíni. Num segundo momento da apresentação de dança, vestia um espartilho.   O deputado publicou uma nota nesta segunda-feira se defendendo da acusação.   Leia a nota na íntegra:     O mandato do professor e deputado estadual Carlos Giannazi vem a público fazer os seguintes esclarecimentos sobre as recentes notícias veiculadas pela grande imprensa, versando sobre uma possível punição a sua atitude de ter lançado, na Assembléia Legislativa, uma Frente Parlamentar em Defesa (dos Direitos) da Comunidade GLBTT, aprovada pela presidência da ALESP e constituída por 15 deputados.   1)Os mandatos, tanto o de vereador (por duas legislaturas) como o de deputado estadual em São Paulo, sempre se pautaram, além da luta histórica pela educação pública e de qualidade, também pelo combate a qualquer forma de discriminação, preconceito e intolerância contra os negros, vítimas do racismo; contra as mulheres, violentadas das mais diversas e perversas formas; e contra os homossexuais, invariavelmente julgados e condenados pela homofobia.   Por meio de várias ações e atitudes representadas por Projetos de Lei, Representações na Justiça, denúncias pela imprensa, seminários, atos de protesto, debates etc, Giannazi sempre fez frente a essas discriminações e continuamente se posicionará pelo respeito à diversidade racial, de gênero, religiosa e sexual.   2)O ato ocorrido na ALESP no dia 24 de outubro, data do lançamento da Frente Parlamentar mencionada, teve (e tem) como objetivo central denunciar a perseguição e a violência a que estão expostas as pessoas de orientação sexual não heterossexual. Mais de 100 pessoas anualmente são mortas e trucidadas violentamente no Brasil apenas por que são homossexuais. Nosso país é um dos mais homofóbicos do mundo e está sendo denunciado internacionalmente por isso.   3)No dia do evento - aberto ao publico e pautado na imprensa -, houve a presença de vários segmentos da comunidade GLBTT, inclusive a de pastores homossexuais da Igreja Evangélica Metropolitana, que apoiaram e mostraram-se dispostos a participar da Frente. Houve também a apresentação artística de uma dança solo, protagonizada por um transformista homossexual, que utilizou a sua arte e sua alegoria corporal - dentro do contexto artístico - para celebrar a iniciativa da Frente, afirmando assim seu livre direito de opção sexual.   4)A Frente Parlamentar manifestou apoio a um Projeto de Lei, em trâmite no Senado Federal, que criminaliza em todo o território nacional a homofobia. Além disso, criticou as tentativas da Prefeitura de São Paulo e da Policia Civil em fechar o Autorama Gay (ponto de encontro histórico e internacionalmente conhecido da comunidade GLBTT) e reprimir os seus freqüentadores. Criticou também o PL 1068/07, do deputado Waldir Agnello, primeiro vice-presidente da ALESP, que revoga a lei estadual 10948/01, legislação vigente que prevê punição administrativa a estabelecimentos no Estado de São Paulo que praticarem a homofobia. Sem deixar de mencionar as criticas ao prefeito Gilberto Kassab, que vetou o projeto de lei substitutivo 440/01, também assinado por Giannazi quando ainda era vereador na capital, que pune estabelecimentos por crimes de homofóbicos na capital do Estado.   5)Diante desses fatos repudiamos qualquer tentativa de desqualificação e de folclorização de uma legítima luta contra o preconceito, a intolerância e a discriminação. Entendemos que a falta de "decoro" não está na roupa, na dança ou no corpo e sim numa cultura política voltada para atender o poder econômico, o loteamento de cargos, o clientelismo e fisiologismo político, a improbidade administrativa e tantas outras mazelas já tão conhecidas e, de modo pertinente, criticadas pela população.     6)O professor e deputado Giannazi acredita que a luta em defesa da educação pública e da valorização do magistério, não obstante - pelo contrário -, pode dar uma grande contribuição para combatermos os preconceitos e assim avançarmos rumo a construção de uma nova sociedade, mais plural, tolerante com seus grupos minoritários, sabedora de seus direitos e deveres, solidária, civilizada diante das diferenças humanas e inconformada com a violência, com a discrepante acessibilidade à justiça social, com a censura e com a vergonhosa corrupção em todos os níveis.

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