Acordo entre Kassab e Quércia teve ação de Fernando Henrique

Depois que o DEM afastou Afif do Senado, o ex-presidente pediu a Alckmin que desistisse de candidatura

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

26 de abril de 2008 | 00h00

A aliança entre o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o ex-governador Orestes Quércia (PMDB) em torno da reeleição à Prefeitura de São Paulo foi oficializada na quinta-feira, mas o cerco contra a candidatura do tucano Geraldo Alckmin se fechou bem antes. Começou quando Kassab bateu à porta da casa de Quércia na noite de 15 de abril, acompanhado do ex-senador Jorge Bornhausen (DEM) e do secretário estadual de Emprego e Relações de Trabalho, Guilherme Afif Domingos (DEM). Os termos do acordo já estavam selados.Na véspera, o trio marcara jantar para discutir não só a corrida municipal, como também o governo de São Paulo e a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em nome de uma aliança presente e futura entre PMDB, DEM e PSDB, todos de olho no Palácio do Planalto, acertou-se ali que Afif abriria mão, para Quércia, de disputar o Senado em 2010.O compromisso foi fundamental para dar segurança ao peemedebista de seu potencial eleitoral com um adversário a menos. Afinal, o secretário obtivera 43,7% dos votos válidos em 2006, ameaçando o petista Eduardo Suplicy na briga pela única cadeira de senador por São Paulo."Levamos o Afif para que Quércia não tivesse nenhuma dúvida da nossa disposição de assumir compromisso com o PMDB e a chapa da aliança foi montada ali", conta Bornhausen. Segundo ele, o secretário "nem sequer pestanejou" quando acatou o acordo.?PROFISSIONAL?As duas horas de conversa com Quércia, regada a uísque escocês, foram só o desfecho de articulação que já durava dois meses e deveria ter sido mantida sob sigilo até que fossem concluídas as negociações com os tucanos. Além da possibilidade de indicar o vice na chapa de Kassab, eles reservaram ao PSDB a segunda vaga ao Senado, que em 2010 renovará dois terços do conjunto de 81 senadores. "Esse PFL é muito profissional", elogiou Quércia, tratando o DEM pela antiga denominação e lembrando o resultado desastroso de acerto semelhante que fechara com o PT em 2002. Como se tratava de aliança não oficial, os petistas comprometeram-se a apoiá-lo, mas na reta final o abandonaram. PMDB e DEM empenham-se agora em tirar o PSDB da disputa municipal, reservando Alckmin para suceder o governador José Serra, que assim ficaria liberado para concorrer ao Planalto. "Eu e Kassab já declaramos nosso apoio a Alckmin. Seria muita teimosia dele insistir na candidatura a prefeito, com o nosso compromisso de apoio para o governo em 2010", ponderou Quércia. "Com Serra na disputa presidencial sem concorrente em São Paulo, nossa aliança fica muito forte."MARTANesse ponto, Quércia e a cúpula do PT partilham o mesmo raciocínio. Ambos consideram que a ministra do Turismo, Marta Suplicy, pode vir a ser forte opção do PT na sucessão de Lula - desde que ela seja capaz de derrotar tucanos, democratas e peemedebistas de São Paulo na briga pela prefeitura. Por essa razão, parte da cúpula do PSDB, na qual se incluem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e serristas, trabalha para que os tucanos fechem com Kassab e Quércia e reúnam força para derrotar Marta e consolidar uma aliança para 2010.A tese do grupo é que, nesse cenário, o PT não terá alternativa paulista para lançar à Presidência. Alckmin, assim, não teria dificuldades para voltar ao governo de São Paulo, não só por sua passagem bem-sucedida pelo Palácio dos Bandeirantes como porque seria embalado por Serra.O principal interlocutor do PSDB e de Serra nessa operação é o chefe da Casa Civil do governo paulista, Aloysio Nunes Ferreira. "Nem Kassab nem Quércia precisavam da minha ajuda, porque o acordo era de interesse mútuo", disfarça o secretário, convencido de que o DEM é o único partido grande que poderia oferecer a Quércia a promessa firme de apoio ao Senado. Ele aposta que, "muito provavelmente", DEM e PSDB estarão juntos em 2010. Foi nesse contexto que Quércia se colocou, antecipando a disposição de apoiar Serra na corrida presidencial e, assim, tê-lo como puxador de votos para o Senado.PRAZO OTIMISTAComo a costura política com os tucanos esbarra na resistência de Alckmin em sair da disputa, Quércia e Kassab decidiram retardar o anúncio da aliança para dar tempo ao PSDB de fazer a costura interna. Mas ambos trabalharam com o prazo otimista que lhes permitiria aproveitar o seminário dos vereadores do DEM, na sexta-feira, em São Paulo, para anunciar oficialmente o acordo.A oferta de uma vaga de senador ao PSDB, fechando a chapa com PMDB e DEM, foi o caminho para facilitar o trabalho de FHC no convencimento de Alckmin. Além de acenar ao ex-governador com a possibilidade de governar São Paulo pela terceira vez, decidiu-se atrair também seu grande aliado na luta pela candidatura a prefeito: o líder tucano na Câmara, José Aníbal (SP). A proposta foi posta à mesa na tarde de sexta-feira, quando Fernando Henrique recebeu Aníbal para conversa reservada em seu apartamento. "Eu soube dessa história do Senado, mas não vou alimentar isso", desconversou o líder depois do encontro. Segundo o deputado, o próprio FHC revelou que, em conversa com Alckmin, sentira que ele está "totalmente decidido" a se manter na briga pela prefeitura.Como o lançamento oficial da pré-candidatura tucana está previsto para 5 de maio, o ex-presidente e Kassab têm, em tese, mais uma semana para demovê-lo da idéia. Mas até Aníbal reconhece que o prazo legal que os serristas terão para compor aliança é bem maior. Afinal, pela legislação em vigor, os partidos têm até 30 de junho para realizar as convenções em que serão escolhidos os candidatos.

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