Acompanhe, passo a passo, uma invasão de terra

O Movimento dos Sem-Terra (MST) reuniu ontem 600 militantes e 58 veículos para invadir a Fazenda Santa Fé, área particular onde são criadas mais de mil cabeças de gado em Sandovalina, no Pontal do Paranapanema. Foi a quinta e a maior operação desde que o movimento retomou as invasões no Pontal, nesta semana, como parte do "abril vermelho" - série de ações em todo o País para lembrar o massacre de Eldorado do Carajás (PA), ocorrido em 1996, e cobrar pressa do governo Lula na reforma agrária.Ao contrário das outras fazendas ocupadas, a Santa Fé, com 1.100 hectares, não é objeto de ação discriminatória - não ocupa terras devolutas -, e é considerada área particular pelo Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp). O MST alega que a área é improdutiva e que não dará trégua na região até assentar mais 40 mil famílias.A invasão começou a ser preparada na semana passada, mas os detalhes foram acertados em assembléia na véspera, no acampamento Margarida Alves, em Sandovalina. Às 3h30, os coordenadores percorreram os barracos acordando os militantes. Logo começou a chegar a condução: carros, peruas, dois caminhões e um ônibus se enfileiraram nos acostamentos da vicinal de acesso a Sandovalina.Na chamada, foram recrutados 418 militantes. Mulheres grávidas ou amamentando e pessoas idosas - cerca de 200 - iriam mais tarde. Quando o comboio partiu, às 4 horas, só os principais líderes sabiam o destino. O coordenador regional Valmir Ulisses Sebastião, de 32 anos, puxava a fila, empunhando a bandeira do MST. Dois batedores, de moto, iam à frente para sondar o trajeto.O cortejo enveredou por uma estrada rural para desviar do centro da cidade. A fila de faróis foi cortando a escuridão e a poeira. A um sinal do líder, o comboio parou, 20 minutos depois, na margem da rodovia que liga Sandovalina a Teodoro Sampaio. Um militante sacou um alicate e os fios de arame liso da cerca foram arrancados.Um festival de carros velhos - Brasília, Passat, Corcel, Corcel II, Belina, Chevette e até um Omega preto - adentrou o pasto molhado pelo orvalho. O gado, iluminado pelos faróis, foi recuando. Os mourões, arrancados, e os arames foram usados para a montar barracas, cobertas com lona preta. "Copiamos esse modelo do Paraná", contou Sebastião. "É mais econômico."Sem reaçãoO dono da Santa Fé, Carlos Moreira, logo soube da invasão. Os funcionários tinham ouvido comentários e estavam de prontidão, mas não reagiram.A fazenda havia sido ocupada em setembro de 2002 pelo MST. Na ocasião, um grupo armado investiu contra os sem-terra, disparando armas de fogo. Houve pânico, mas nenhum ferido.Outras fazendas estavam mais cotadas para serem invadidas, incluindo a São Manoel, do presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia. "Mas essa aqui, por causa dos tiros, estava na nossa garganta", contou Sebastião. Os seis homens acusados de terem feito os disparos foram presos, mas libertados por falta de prova.Desta vez, os dois lados se dizem prontos para dialogar. O sargento da Polícia Militar João Conti procurou os sem-terra e pediu que fosse evitado o enfrentamento.O advogado de Moreira entrou ontem mesmo com o pedido de reintegração de posse. "Se sair o despejo, ocupamos em outro lugar", avisou o líder do MST. A maior parte das famílias, garante, está sob a lona há mais de três anos. O menino Tauã Igor, de 3 anos, uma das crianças levada com o comboio, nasceu num acampamento.

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