ACM plagiou discurso de Afonso Arinos

O que é a mentira? O que é a verdade? A interrogação, em tom solene, era o ápice do primeiro parágrafo do discurso de renúncia do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL), na semana passada. Nele, o cacique baiano narrava o "momento em que a maior Justiça se encontrou com a maior injustiça", descrevia a "perturbadora fúria" das "multidões arrebatadas" e chegava a evocar o nome de Pôncio Piltatos. O estilo rebuscado e a retórica eloqüente fizeram da abertura do pronunciamento um de seus momentos verdadeiramente marcantes. Um detalhe: o trecho inteiro é um plágio literal do discurso feito na Câmara, em 9 de agosto de 1954, pelo então deputado federal Afonso Arinos de Melo Franco.No célebre discurso, Arinos protestava contra o atentado da Rua Toneleiros - em que foi assassinado o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que acompanhava o jornalista Carlos Lacerda - e pedia a renúncia do presidente Getúlio Vargas. Quinze dias depois, Vargas suicidou-se.A violação do direito autoral do discurso passou despercebida por todos os analistas políticos e órgãos de imprensa. E assim ficaria, se não fosse o ouvido aguçado de um internauta de perfil meio anarquista, que tem uma página na Internet com o sugestivo nome de Catarro Verde (www.catarro.blogspot.com). Colecionador de arquivos de som, os chamados MP3, Sérgio Faria achou que era muita coincidência para dois discursos só, e resolveu conferir. Resultado: os trechos eram absolutamente iguais. E, no caso de ACM, sem créditos à fonte.Mas as coincidências não param por aí. O discurso de Arinos foi recuperado - e pode ser lido na íntregra - num livro intitulado Os Grandes Momentos do Parlamento Brasileiro, editado pelo Senado, quando ACM era presidente da Casa. E é o próprio ex-senador baiano quem assina o texto de abertura da publicação, saudando a originalidade e força dos pronunciamentos dos parlamentares.Faria tinha divulgado a "coincidência" somente no seu site pessoal na Internet, até que a discussão foi parar num fórum de debates (www.palindromo.org.br) e foi descoberta por Marcelo Tas, apresentador do programa Vitrine da TV Cultura. Tas tratou do assunto no programa que foi ao ar ontem à noite. "A história revela bastante sobre o poder da Internet", analisa Tas. "E mostra que a mentira tem cada vez pernas mais curtas."A inspiração de ACM em Arinos não ficou por aí. O Estado apurou que, na fala da renúncia, quando o ex-senador baiano citou Joaquim Nabuco e sua reflexão de que "dos moderados não se podem esperar decisões supremas", ACM estava usando uma citação feita pelo mesmo Arinos em outro discurso, de maio de 1957 - que também está no livro. "(Os) pronunciamentos que valem ser relembrados em defesa da memória política do País, independentemente de conceitos ou ideologias, cabendo a cada um que os ouvir fazer o seu julgamento", escreveu ACM, profético, no prefácio.

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