ACM Neto monta aliança ecumênica em Salvador

Deputado vira símbolo do sincretismo político e lidera pesquisa de intenção de voto para prefeito

Eugênia Lopes, O Estadao de S.Paulo

14 de junho de 2008 | 00h00

Candidato a prefeito de Salvador, o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA) conseguiu montar uma coligação em torno de seu nome que une partidos adversários na política federal (DEM e PR), religiões antagônicas (católicos e evangélicos) e sistemas de comunicação concorrentes (TV Globo e Record). A pouco menos de quatro meses das eleições municipais, o palanque de ACM Neto transformou-se em uma espécie de terreiro do sincretismo político, reproduzindo o famoso ecletismo religioso da Bahia.Uma síntese dessa situação pôde ser observada, na semana passada, durante a votação da Contribuição Social para a Saúde (CSS), aprovada por apenas dois votos de diferença na Câmara. Enquanto ACM Neto votou contra o novo imposto, Márcio Marinho, candidato a vice-prefeito em sua chapa, votou favoravelmente à contribuição. Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Marinho é primeiro suplente de deputado e só assumiu a cadeira na Casa porque Luiz Carreira (DEM-BA) pediu licença do mandato federal para coordenar a campanha de ACM Neto.Ou seja: se Carreira estivesse na Câmara, provavelmente o governo ganharia a CSS por apenas um voto de diferença.O sincretismo político de ACM Neto é ditado pela necessidade de sobrevivência do clã no Estado. Os Magalhães começaram a perder terreno para a oposição em 2004, com a eleição do então pedetista e hoje prefeito de Salvador, João Henrique, atualmente no PMDB. Continuou em 2006, com a eleição do petista Jaques Wagner para o governo do Estado. "Fui capaz de reverter o isolamento político que o PT da Bahia tentou me impor. As alianças feitas em Salvador facilitaram as coligações no interior do Estado", diz ACM Neto.As eleições de 5 de outubro serão as primeiras nos últimos 50 anos sem a presença do senador Antonio Carlos Magalhães, morto em meados de 2007. O deputado descreve assim o novo cenário político: "Com a morte do senador, saímos de uma realidade de polarização para a pulverização de candidaturas aqui em Salvador. Antes, o jogo era só o pró ou contra ACM".A própria oposição trabalhava em cima desse dilema: "Antes era realmente mais simples. Quem gostava do ACM votava no candidato dele, quem não gostava votava contra", lembra o deputado Jutahy Magalhães Júnior (PSDB-BA), adversário histórico dos Magalhães. O jogo de cintura de ACM Neto surpreendeu seus adversários, no início deste mês, ao conseguir o apoio do comunicador Raimundo Varela, do PRB, partido do vice-presidente da República José Alencar, primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto. Funcionário da Rede Record, Varela trouxe para a candidatura do deputado o bispo Márcio Marinho, do PR. ACM Neto obteve ainda o apoio dos nanicos PSDC, PTN, PTC, PT do B e PRP. "Agora não existe uma barreira política intransponível como no passado", avalia ACM Neto, ao lembrar que seu avô iniciou a carreira política na década de 50, "quando as coisas eram bem diferentes".CONTRADIÇÃOEle não vê contradição no fato de seus principais aliados estarem na base de sustentação do governo federal. "Uma coisa é o papel de deputado; outra é o de prefeito, se eu for eleito", ressalta. E vai além: "O prefeito tem o dever de dialogar com o governo do Estado e o federal. PR e PRB servirão como ponte para essa comunicação."Para obter apoios, ACM Neto passou por cima ainda de interesses comerciais. Sua família é dona da repetidora da Rede Globo na Bahia, que tem entre suas principais concorrentes a Record, a quem o vice Márcio Marinho é ligado. A Igreja Universal é dona da Record. "Não costuraria um acordo que tivesse interesses empresariais. São coisas distintas", diz o deputado.Com o bispo Marinho, a expectativa é de que venham os votos dos evangélicos, o que não é do agrado da cúpula da Igreja Católica baiana. "Em sua essência, a Bahia representa a tolerância com os diferentes", ameniza o deputado.Pesquisas informais de intenção de voto em Salvador, que municiam os pré-candidatos, apontam para sua liderança na corrida, depois que ele ganhou o apoio de Raimundo Varela. ACM Neto estaria tecnicamente empatado com o ex-pefelista e hoje tucano Antonio Imbassahy. Em seguida, viria o prefeito João Henrique, candidato à reeleição, e na lanterninha o deputado petista Walter Pinheiro.

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