ACM não deixa herdeiros

ACM soube combinar muito bem as duas faces desse binômio, que trouxe como resultado a situação sócio econômico atual de seu Estado

Por José Arlindo Soares**,

21 de julho de 2007 | 07h44

A longa presença de ACM na vida política nacional, tendo como base eleitoral o Estado da Bahia, mostra que no Brasil ainda é possível combinar o estilo coronelístico com traços de modernização administrativa. ACM soube combinar muito bem as duas faces desse binômio, que trouxe como resultado a situação sócio econômico atual de seu Estado.   Ele teve influência decisiva na modernização urbanística de Salvador, na instalação do pólo petroquímico, na indústria automobilística, até mesmo na aliança com intelectuais de esquerda para divulgar a cultura baiana. Na outra ponta, manteve o atraso social , sustentando e sendo sustentado por políticos e grupos avessos a qualquer mudança social e políticos locais - que em parte que são responsáveis pelos baixos indicadores sociais no interior. Mas numa outra direção os governos carlistas levaram para as microrregiões do Estado importantes centros universitários, que funcionam com razoável nível de qualidade.   ACM procurava não perder o controle da situação e procurava se antecipar às crises, promovendo mudanças e modernizando uma elite dentro seu próprio grupo. Isso fez com que nos governos carlistas tenha se formado uma burocracia competente, muitas vezes com a colaboração de técnicos de esquerda.   ACM admitia essa convivência técnica mas sempre se manteve refratário ao pluralismo político. Ele não dividia o comando. Por exemplo, qualquer secretário de um governador de seu grupo só poderia ser candidato a deputado ou a qualquer cargo se ACM desse o aval. Alguns desses secretários contavam isso com a maior naturalidade.   Os vários Nordestes   Ao contrário do que muitos pensam , o Nordeste não tem um comportamento unitário. Nos dois outros Estados maiores, além da Bahia, como Pernambuco e Ceará, a trajetória das elites foi outra . Em Pernambuco, já em 1958, a esquerda conseguiu dar o tom a uma Frente Política envolvendo grupos econômicos tradicionais - rompendo a monopólio político das oligarquias e instituindo um pluralismo político que dificulta práticas de mandonismo absoluto de um líder.   Existe uma competição maior entre as elites, incluindo aí as elites da chamada esquerda. No Ceará, esse fenômeno ocorreu alguns anos depois, em 1986, quando um grupo de empresários comandados por Tasso Jereissati - com aliados da esquerda e de alguns remanescentes da Arena, como o ex-governador Ciro Gomes - derrotaram o núcleo duro de coronelismo. Isso deu margem a uma oxigenação pluralista e a uma certa modernização administrativa na política cearense.   Nos dois Estados citados continuam existindo práticas coronelísticas , mas as condição de competição são maiores. Na Bahia esse processo foi mais lento - tanto pela caráter afirmativo do carlismo como pela dificuldade da oposição e da esquerda de apresentarem uma alternativa viável para governar o Estado.   O eleitorado até que tentou superar o Carlismo - em 1986- ele foi derrotado de cabo a rabo pelo PMDB, liderado por Waldir Pires - que, por sinal, mostrou-se absolutamente inepto para administrar, a ponto de abandonar o governo da Bahia com dois anos. A população se sentiu traída a voltou a dar a hegemonia a ACM - 3e ele voltou com o mesmo estilo.   Passou a ser legitimado pela democracia. Vinte anos depois, volta a ser derrotado na onda do lulismo - através de um frente com o comando formal do PT- mas com componentes tão conservadores e métodos controversos como habitualmente pratica ACM.   E daqui para a frente? Talvez agora comece a se estabelecer um maior equilibro entre as diversas forças políticas no Estado da Bahia. Com Antonio Carlos vivo o atual governador teria de manter um desempenho administrativo muito para bom para que o eleitorado não voltasse a ter saudades do carlismo. Sem ACM, a polarização tende a se diluir em diversos sub grupos - e conseqüentemente teremos uma competição menos polarizada. O estilo ACM não tem herdeiros e com isso a composição da política na Bahia muda bastante. Nenhum familiar ou outro político tem condições de manter a unidade do grupo - Nesse sentido, ACM não tem substituto.   **José Arlindo Soares é professor de Sociologia das Universidade Federal da Paraíba e especialista em estudos sobre problemas socioeconômicos do Nordeste. Foi secretário de Planejamento do ex-governador Jarbas Vasconcelos em Pernambuco.

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