ACM foi personagem forte na política por 53 anos

Senador baiano morreu na manhã desta sexta-feira, por falência múltipla dos órgãos

Agência Estado

20 de julho de 2007 | 12h54

Personagem de destaque da cena política brasileira nos últimos 53 anos, o senador Antônio Carlos Magalhães nasceu em 1927, em Salvador (BA). Formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia em 1952, nunca exerceu a profissão e começou a fazer política na vida estudantil quando presidiu o Grêmio do Ginásio da Bahia e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) na Universidade.  Já em 1954 elegeu-se deputado estadual pela Assembléia Legislativa do Estado pela União Democrática Nacional (UDN). Em 1958, tornou-se deputado federal e foi reeleito em 1962 e 1966, dessa vez pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do governo militar.  Foi prefeito de Salvador entre 1967 e 1970, nomeado pelo então governador Luís Viana Filho, e governador da Bahia em 1971, 1979 - pelo Partido Democrático Social (PDS) - e 1991. Escolhido pelo presidente Ernesto Geisel, em 1975, ACM presidiu a Eletrobrás e integrou o Conselho de Administração da Binacional Itaipu. Foi um dos fundadores do Partido da Frente Liberal (PFL), juntamente com o ex-senador Jorge Bornhausen, em 1985, e ministro das Comunicações durante o governo do ex-presidente José Sarney. Tornou-se senador pela primeira vez em 1995, ocupando inclusive a presidência da Casa entre 1997 e 2001, sendo reeleito em 2002. Outro ponto marcante de sua atuação foi o jornalismo. Como redator, trabalhou na Assembléia Legislativa da Bahia e no jornal "Estado da Bahia", dos Diários Associados, tornando-se posteriormente dono de uma rede de comunicações que inclui TVs, jornais e rádios. Nesse campo era temido também por desfrutar de um relacionamento privilegiado com as Organizações Globo, no tempo em que o grupo era comandado pelo jornalista Roberto Marinho. Dono de um estilo verbal contundente, implacável com seus adversários e detentor de uma presença quase hegemônica na Bahia, em função das boas avaliações populares que obteve em seus governos, o senador foi qualificado como um "coronel" por seus oponentes que também lhe cravaram o apelido de "Toninho Malvadeza", principalmente pela fama de colecionar dossiês sobre seus desafetos. Da mesma forma como era acusado de corrupção, ACM também fazia acusações de igual conteúdo, ao sabor de suas conveniências políticas. No gestão Itamar Franco, por exemplo, dirigiu-se ruidosamente ao Palácio do Planalto para denunciar casos de corrupção no governo federal, mas recuou, surpreso, quando o presidente decidiu manter em seu gabinete os jornalistas que haviam entrado apenas para registrar as cenas iniciais do encontro. Naquele que é considerado um dos seus desempenhos mais corajosos, ACM enfrentou o então ministro da Aeronáutica do governo João Baptista Figueiredo, brigadeiro Délio Jardim de Mattos, que havia chamado de traidores os situacionistas que não apoiavam a candidatura oficial do ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf, no Colégio Eleitoral para a eleição da presidência da República em 1984. "Trair a Revolução de 1964 e a memória de Castelo Branco e Eduardo Gomes é apoiar Maluf para presidente", reagiu ACM, em nota.  Ele, que apoiava a candidatura oposicionista de Tancredo Neves, fez ainda declarações considerando corruptos os que marchavam com Maluf. Durante muito tempo, o polêmico político baiano faturou o episódio como decisivo para o processo de redemocratização do País e o utilizava como antídoto às críticas de seus desafetos da esquerda que insistiam em vinculá-lo à ditadura militar. Rompimento com FHC Em 2001, rompeu com FHC após a eleição de Jader Barbalho (PMDB-PA) para a presidência do Senado, o que considerou uma traição. ACM deu declarações em apoio à instalação de uma CPI na Câmara e no Senado para investigar corrupção do governo FHC. Na época, o Conselho de Ética do Senado estava iniciando uma investigação contra ACM por seu envolvimento na violação do painel eletrônico da Casa, durante votação da cassação do ex-senador Luiz Estevão. Numa escuta telefônica, ele admitiu a procuradores da República que tinha uma lista dos nomes de quem havia votado a favor e contra a cassação do ex-senador, apesar do processo ter sido realizado por meio de votação secreta. A estratégia do ex-senador era clara: atacar o governo para tentar retardar o processo de sua investigação. Em farpas públicas, os dois se acusaram na imprensa e no Congresso. No final de maio, ACM renunciou para não ser cassado, e, em sua carta, previu um colapso do País, chamando o governo FHC de autista. Vingou-se logo depois, munindo a imprensa de denúncias contra o então presidente da Casa, Jader Barbalho (PMDB-PA), seu desafeto político, que poucos meses depois, também renunciou ao cargo de senador. Em 2002, voltou ao Senado, onde exercia mandato até então. Durante o governo Lula, ACM alterou discursos.  Chegou a apoiar o presidente, depois voltou a ser oposicionista ferrenho, à época da crise do mensalão, e, nos últimos tempos, adotou um discurso mais brando, sem deixar de criticar o governo. Em 2004, seu candidato à Prefeitura de Salvador, César Borges, perdeu a eleição para João Henrique Carneiro (PDT), e, em 2006, foi a vez de seu candidato ao governo da Bahia, Paulo Souto (PFL), ser derrotado pelo petista Jacques Wagner. Não faltaram adversários para comemorar o que chamaram de o fim do carlismo na Bahia.  Apesar de abalado, o senador não se deu por vencido: "Vocês verão o desastre que será o governo baiano e a volta triunfal do carlismo. O carlismo é uma legenda que não se apaga, queiram ou não os cronistas políticos." Mas, em 1986, num outro revés de grande repercussão, ACM já havia amargado a derrota do seu candidato ao governo da Bahia, Josaphat Marinho, para o atual ministro da Defesa, Waldir Pires, então no PMDB.Por trás da políticaNa vida pessoal, ACM enfrentou dois grandes dramas. Em 1986, sua filha Ana Lúcia Magalhães, de 28 anos, diretora do "Correio da Bahia", suicidou-se com um tiro na cabeça. Em 1998, enfrentou a morte de seu filho, o deputado Luís Eduardo Maron Magalhães, aos 43 anos, em decorrência de um ataque cardíaco. Luís Eduardo foi uma das grandes lideranças do PFL durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Presidente da Câmara entre 1995 e 1997, era muito próximo de FHC e cotado para ser candidato à Presidência da República, numa aliança entre PSDB e PFL. Para pessoas próximas a ACM, o senador perdeu grande parte de sua força após a morte do filho e nunca mais foi o mesmo. ACM convivia com problemas explícitos de saúde desde 1989, quando sofreu infarto. Operado pelo cardiologista Adib Jatene, recebeu o implante de duas pontes de safena e duas mamárias. Em 1991, foi operado em Londres para a retirada de três cálculos renais e, em setembro de 1999, foi submetido a uma biópsia na próstata (exame que tem o objetivo de detectar a existência de câncer no órgão), cujo resultado deu negativo.  Em março de 2001 passou por exames no Hospital Aliança, em Salvador, em razão de problemas pulmonares. ACM deixa a mulher, Arlete Maron de Magalhães, e dois filhos - Antonio Carlos Magalhães Junior e Teresa Helena Magalhães, além de seu herdeiro político, o deputado federal pelo PFL na Bahia Antonio Carlos Magalhães Neto.

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