ACM: Aliados querem embaralhar investigação de painel

Aliados do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) pretendem embaralhar a investigação sobre a violação do painel eletrônico do plenário do Senado durante a cassação do ex-senador Luiz Estevão (PMDB-DF). Diante da suspeita de que teriam ocorrido outras violações, eles pretendem requerer ao Conselho de Ética que solicite um novo laudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre a vulnerabilidade do painel, abrangendo todas as votações secretas realizadas desde fevereiro de 1997, quando o painel antigo foi substituído pelo atual.As suspeitas de outras violações ganharam força no final de semana, quando se especulou sobre a possibilidade de o ex-líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF), denunciar outras supostas fraudes e envolver o ex-ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República Eduardo Jorge Caldas Pereira, que dirigiu o Centro de Informática e Processamento de dados do Senado (Prodasen) na década de 80 e no governo Fernando Henrique foi responsável pelo acompanhamento de votação importantes no Congresso.Abandonado pelo seu partido e pelo Palácio do Planalto, Arruda estaria disposto a contar detalhes sobre a votação secreta que aprovou a indicação da diretora de Fiscalização do Banco Central, Tereza Grossi, para o cargo, em 28 de março do ano passado, três meses antes da cassação de Estevão.O senador Antonio Carlos disse ontem desconhecer qualquer tipo de violação de votações secretas durante sua gestão como presidente do Senado. Mas considerou que, diante da revelação feita pela ex-diretora-executiva do Prodasen, Regina Célia Borges, de que houve violação do voto secreto, é preciso ampliar a investigação. "Agora que ela disse que o painel é violável, deve-se fazer todas as pesquisas possíveis para descobrir se houve outras violações; é até justo que se peça um laudo sobre isso", justificou ACM.O consultor geral do Senado, Dirceu Teixeira de Matos, presidente da Comissão de Sindicância que apurou a denúncia de violação do painel, confirmou que existe a possibilidade de ter ocorrido outros casos. Ele explicou que os técnicos da Unicamp se concentraram apenas na votação da cassação de Estevão porque a reconstituição de outras votações demandaria um trabalho "insano".Segundo Matos, a Unicamp teria condições de averiguar possíveis violações anteriores, mas apenas a partir de setembro de 99, quando o sistema operacional - que apresentava defeitos - foi substituído por um programa mais moderno e com mais recursos. "Se o Conselho de Ética demandar isso, a gente leva adiante", disse o consultor do Senado.Fatos concretos - Entretanto, o presidente do Conselho de Ética do Senado, Ramez Tebet (PMDB-MS), não está disposto a ampliar a investigação com base apenas em suposições. "Se surgirem fatos concretos ao longo da investigação, tudo bem; mas não vamos permitir desvios protelatórios, pois se tivermos que investigar tudo o que aconteceu antes, não acabamos nunca", sustentou Tebet, ressalvando que um novo laudo só seria necessário se testemunhas confirmassem as suspeitas de outras violações."Isso é um absurdo", reagiu o ex-ministro Elcio Álvares (PFL-ES), líder do governo no Senado durante o primeiro mandato de Fernando Henrique. "Não me lembro de nenhuma votação rumorosa e nunca tive conhecimento de qualquer notícia desse tipo", acrescentou Álvares, que voltou a atuar como advogado em Vitória depois que foi forçado a se afastar do Ministério da Defesa por causa de denúncias de envolvimento com pessoas ligadas ao narcotráfico. As votações secretas no Senado ocorrem, geralmente, na eleição da Mesa Diretora, em processos de perda de mandato e nas homologações de indicações para as diretorias do Banco Central, das agências reguladoras e de embaixadores.Depoimentos - O senador José Roberto Arruda passou o domingo isolado com seus advogados, cuidando da defesa que apresentará ao Conselho de Ética. Hoje, as atenções se voltam para seu assessor Domingos Lamoglia, apontado por Regina Célia como o mensageiro da lista da votação secreta que cassou Luiz Estevão. Ele deverá falar à Corregedoria-Geral do Senado, a portas fechadas, mas o momento mais esperado será seu depoimento ao Conselho de Ética amanhã, às 17h. Domingos, que não é funcionário do Senado, tem dito a amigos que não esquivar-se de nenhum depoimento e aceita, inclusive, submeter-se a uma acareação com os outros envolvidos.Também prestará depoimento amanhã o assessor de Luiz Estevão, Nilson da Silva Ribeiro, que teria obtido informações, na véspera da cassação, sobre a possibilidade de o sistema ser violado. Além de Lamoglia, o Conselho de Ética ouve amanhã os funcionários do Prodasen Heitor Ledur, Hermílio Nóbrega e Ivair Ferreira - marido de Regina Célia, e o técnico da empresa que dava manutenção ao sistema eletrônico, Sebastião Gazzolla, que também teria participado da fraude. O senador Antonio Carlos irá ao Conselho na quinta-feira. Estará acompanhado de correligionários que pretendem lhe dar apoio público.

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