ACM ainda deixa dúvidas entre senadores

Acuado pela contradição entre as declarações que fez antes e a versão que apresentou hoje, o ex-presidente do Senado Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) não conseguiu convencer a seus colegas do Conselho de Ética de que foi "surpreendido" pela violação do painel do plenário. ACM se valeu da sua conhecida habilidade no uso das palavras. Mas mesmo os senadores com os quais sempre manteve um bom relacionamento, como Jefferson Péres (PDT-AM) e Osmar Dias (PSDB-PR), apontaram incoerência na sua posição ao receber do então líder do governo, José Roberto Arruda (PSDB-DF), a lista da votação secreta que cassou Luiz Estevão (PMDB-DF). Os senadores não aceitaram seus argumentos de que não agiu para apurar o caso porque queria preservar a imagem do Senado. "Essas contradições prejudicam a veracidade de suas afirmações", declarou o relator Roberto Saturnino (PSB-RJ). Ainda assim, apesar de estar na berlinda, em nenhum momento ACM perdeu a pose. Ao contrário, fiel ao seu estilo, deu várias vezes demonstrações de segurança, de autoritarismo e até de bom-humor. A responsabilidade máxima que ele se dispôs a assumir é a de ter se omitido nesse episódio, na sua opinião justificadamente "Se houve omissão devo assumi-la em defesa do Senado", argumentou. No início no depoimento, ele se comportou como se estivesse na presidência do Senado, provocando riso nos presentes. Foi quando autorizou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) a se manifestar, dizendo as palavras de praxe "pela ordem". Rapidamente, o presidente do Conselho, Ramez Tebet (PMDB-MS), retomou o comando dos trabalhos. Mais na frente, quando rebatia as colocações dos senadores Ney Suassuna (PMDB-PB) e Antero de Barros (PSDB-MT), ACM deixou claro o quanto entende do jogo político. Em vez de enfrentar os dois colegas com os quais sempre manteve um relacionamento difícil, ele procurou ser diplomático. Ele também deixou claro que não tinha interesse em aumentar ainda mais suas divergências com a senadora Heloisa Helena (PT-AL). Chegou ao ponto de tentar "amaciar" as palavras de Antero, dando-lhe o conselho de "não levar o ódio ao debate". "Não queira trazer questões pessoais para cá", sugeriu, alimentando a idéia de que procurava dividir seus debatedores entre seus amigos e seus desafetos. Porém, os únicos presentes que procuraram não deixar dúvidas sobre as ligações de amizade que mantém com ACM foram seus "apadrinhados" Waldeck Ornelas e Paulo Souto, ambos do PFL baiano. Segundo eles, ao saber da violação do painel, ACM tomou a decisão menos prejudicial ao Senado. "A informação do laudo de que o resultado (da cassação de Estevão) não foi alterado, lhe deu a liberdade de dizer o que sabia", justificou Waldeck. No depoimento, também ficou claro a tática de ACM de não atacar o senador José Roberto Arruda além do necessário. Chegou mesmo a ponto de elogiá-lo, lembrando do "excelente serviço que prestou com líder do governo". O que ficou claro, porém, é que ele não vai assumir ou mesmo repartir com Arruda a iniciativa pela violação do painel, como demonstrou o senador Ney Suassuna. A dubiedade de suas palavras foi entendida como sendo uma artimanha para evitar novos ataques do senador que vai depor hoje no Conselho de Ética. O senador paraibano disse ter entendido que a defesa de ACM era "fúnebre" de quem "colocava a corda no pescoço de Arruda". Poucas vezes, durante o depoimento, o ex-presidente do Senado conseguiu se livrar de uma aparência de desânimo. Ele não disse com palavras, mas deixou claro o quanto tem sido difícil aceitar a situação de depor como réu no Conselho de Ética.

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