FELIPE RAU/ESTADAO
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‘Acho que ele fez uma coisa muito grave, se for verdade’, diz avó de hacker preso

Moradora de Araraquara, dona Otília Delgatti teve a casa revistada por policiais à procura de seu neto, Walter Delgatti, acusado de hackear celulares de autoridades

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2019 | 15h32

ARARAQUARA – Dona Otília Gomes Delgatti, de 82 anos, ainda não se recuperou do susto quando, na última terça-feira, 23, quatro viaturas da Polícia Federal cercaram sua casa, numa esquina da Avenida Santa Inês, na Vila Santa Maria, em Araraquara, interior de São Paulo. Os agentes procuravam seu neto, Walter Delgatti Neto, de 30 anos, acusado de invadir os celulares de autoridades como o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e o próprio presidente Jair Bolsonaro (PSL). “Acho que ele fez uma coisa muito grave, se for verdade”, afirmou.

Delgatti foi um dos quatro presos na operação de terça-feira. Ele foi localizado em Ribeirão Preto. Em depoimento, assumiu ter hackeado o telefone de Moro e outras autoridades. 

O aparato policial na casa de Dona Otília chamou a atenção dos vizinhos, pouco acostumados ao movimento no pacato bairro residencial, embora próximo do centro. A senhora descansava quando os agentes chegaram. “Reviraram a casa inteira, procuraram até no quintal e na casa do cachorro”, disse.

“Eles foram educados, até gentis comigo. Foram ao quarto, ao banheiro, procuraram em tudo, mas meu neto, que eles procuravam, não estava. Ele saiu daqui em abril e eu esperava que ele voltasse. O Neto dava notícias, dizia que estava em São Paulo. Só soube da prisão depois que a polícia foi embora. Ele estava em Ribeirão Preto, em um hotel. Eu não sabia”, afirmou.

Dona Otília, que mora com outro neto, Wisley, irmão de Walter, disse que os dois ficaram abalados após a morte do pai, Walter Filho, no dia 20 de novembro de 2018. “O Waltinho morreu engasgado com comida. Teve um enfarte enquanto comia. Eles ficaram arrasados.” Ela tem outro filho, tio de Walter, que trabalha na prefeitura.

Conforme a senhora, seus netos eram pouco ligados à mãe deles, Silvana Aparecida Francisco Delgatti, que mora em outro bairro, o Selmi Dei. “Era tudo aqui comigo, eu os criei como filhos, a referência deles é esta casa que meu marido me deixou”, afirmou. Silvana não tinha sido localizada pela reportagem até o início da tarde. 

A avó contou que Walter sempre foi um rapaz curioso e inteligente. “Ele tinha 12 anos quando veio morar comigo. Eu e meu marido cuidávamos dele. O Neto sabia conversar e, que eu saiba, não fazia nada errado. Estão falando muitas coisas. O celular do Moro e também do Bolsonaro... quanta elegância!”, disse.  

A idosa acompanha o noticiário por uma televisão antiga, de tubo. “Já saí na televisão, vieram aqui, me entrevistaram, mas eu não sabia de nada. Eu não esperava nada disso. Não conheço os outros meninos, o tal de Guto (o DJ Gustavo Santos, também preso) nunca veio aqui.” Conforme a avó, o neto levava uma vida que, para ela, era normal. “Ele é muito bom, tinha muitos amigos. Não era casado, então tinha as namoradas por aí, corria o trecho passeando.” Ela disse que o outro neto, Wisley, chegou a falar com um advogado. “Ele disse que em cinco dias o Neto vai estar aqui. Acho que ele volta logo. Vou ficar esperando.”

Vizinhos da família dizem que o rapaz é simpático, mas ninguém sabia da vida privada dele. Muitos não quiseram se identificar. O pintor Sebastião Luiz Filho, de 62 anos, que conhece os Delgatti há 30 anos, disse que Walter não aparentava nada de errado. “Era um menino bom com as pessoas, tratava todo mundo bem. A avó dele, essa senhora, é uma pessoa boníssima. A molecada, hoje em dia, a gente não sabe quando vai aprontar.” Sebastião disse que Neto não aparentava ter dinheiro. “Às vezes ele estava de carro, outras chegava a pé. Ultimamente ele não era visto aqui pelo bairro.”

Na delegacia seccional da Polícia Civil de Araraquara nenhum policial quis falar do caso. O delegado seccional substituto Vinícius Moreira disse que o caso está sendo conduzido pela Polícia Federal e que também não falaria sobre a vida pregressa do hacker. O advogado Toni Rogério Silvano Onofre, com escritório próximo da delegacia, disse que foi procurado por um parente de Walter Delgatti. “Foi uma conversa no sentido de acompanharmos o Walter em Brasília e aqui, mas ainda não fechamos. Preciso ver o caso em mais detalhes. Já fizemos casos de hacker e tivemos sucesso”, disse.

'Revezamento'

Vizinhos se revezavam na vigilância da casa do ex-DJ Gustavo Henrique Elias Santos e de sua mulher nesta quinta. O casal está preso em Brasília, suspeito de integrar o grupo que invadiu os celulares de autoridades, como o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e do presidente Jair Bolsonaro (PSL). O imóvel, de padrão acima da média do bairro popular, é cercado de muros altos e guardado por câmeras.

Assim que chegou ao local, a reportagem foi abordada pelo vizinho do lado direito, incomodado com a ‘intromissão’. Sem se identificar, ele disse que estava cuidando do imóvel vazio apenas por ser vizinho. “Quem vocês estão procurando não está aí, não tem ninguém”, disse.

O comerciante João Correia, que tem um mercadinho do outro lado da rua, disse que os agentes tiveram de pular o muro para entrar na casa. “Eles saíram com coisas, mas a gente não sabe o que.” Segundo ele, Gustavo sempre foi muito discreto no bairro. “Não era costume dele ficar conversando. A esposa vinha sempre aqui, fazia as compras e ia para casa. O portão sempre ficou fechado.”

O casal Gustavo e Suelen foi preso em um apartamento, em São Paulo. A casa, na rua Maria do Carmo Ferreira Granato, foi um dos alvos de buscas da PF porque dela teriam partido alguns ataques a celulares, segundo a investigação. O bairro fica distante 7 quilômetros do centro. A mãe do principal suspeito dos ataques, Walter Delgatti Neto, Silvana Aparecida Francisco Delgatti, também mora no bairro Selmi Dei, mas ela não foi localizada pela reportagem. Gustavo e Walter seriam amigos, mas as pessoas ouvidas no bairro disseram que nunca os viram juntos.

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