ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Acesso a escola ainda deve ser prioridade

Na capital, mais de 103 mil crianças estão fora da creche por falta de vaga; sem universalização, qualidade do ensino fica em segundo plano

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2016 | 05h00

Beatriz e Eloá fazem parte de uma estatística que só cresce na região onde moram. De janeiro para cá, o número de crianças fora da creche na Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo, ganhou 1.394 nomes e a fila por uma vaga soma hoje 2.654. As meninas estão na lista de 103 mil crianças cujas famílias, em São Paulo, se desdobram para pagar uma escola particular ou mesmo um parente para tomar conta enquanto a vaga pública não sai.

A recepcionista Sabrina Borges de Oliveira, de 31 anos, gasta todos os meses um terço de seu salário com a tia, que faz as vezes de babá de sua filha. Beatriz, de 1 ano e 9 meses, entrou na fila da creche em fevereiro, quando a mãe voltou a trabalhar. “Não imaginei que fosse demorar tanto. Acompanho a posição dela pelo sistema e a impressão que dá é que ela não sai do lugar. Um dia tem 21 crianças na frente dela, no outro, 24 e assim vai”, conta. A tia cobra menos que uma escolinha, mas os R$ 450 mensais fazem falta.

Na casa da diarista Suderlene Chagas da Cruz, de 38 anos, pagar alguém para ficar com a neta Eloá Helena da Cruz Marques, de 2, é luxo que a família não pode arcar. “Quando tenho faxina para fazer, é minha filha de 17 anos quem fica em casa. Ou ela perde aula ou eu perco o emprego. É assim a nossa vida”, reclama. “Fizemos a inscrição logo que ela nasceu, mas até agora nada”, diz.

Na capital, histórias como as de Beatriz e Eloá são recorrentes. Debatida em toda campanha eleitoral, a universalização do acesso à educação ainda é o maior desafio a se enfrentar na busca por uma rede de ensino justa e de qualidade. “Vaga em creche é direito da criança. Os governantes precisam encontrar uma maneira de fazer valer esse direito. Se as crianças não estão na escola não dá para iniciar nenhuma outra discussão sobre qualidade de ensino, por exemplo. É o maior desafio e deve ser a maior prioridade”, diz o professor Ocimar Munhoz Alavarse, que é doutor em Educação pela USP.

Segundo a atual gestão, foram criadas 80,6 mil vagas desde 2013, a partir de uma expansão recorde de convênios com entidades particulares. Nesse modelo, instituições recebem verba municipal para manter imóveis, comprar material, merenda e pagar funcionários.

A cidade de São Paulo tem hoje 1.322 creches sob esse formato que, apesar de mais ágil no atendimento às crianças, já que não exige construção, é criticado por especialistas. Entre os problemas, estão os salários pagos aos professores, que recebem cerca de 40% menos do que os concursados e trabalham dez horas a mais por semana, e a estrutura física das unidades nem sempre é planejada para receber crianças.

Qualidade. Com o acesso à escola garantido, o investimento na qualidade talvez possa se transformar na principal demanda da área. Motivos não faltam. Em uma escala de 0 a 10, a nota alcançada pela rede municipal é de 5,8 na primeira fase do fundamental (do 1.º ao 5.º ano). Na etapa seguinte (6.º ao 9.º), o índice cai para 4,3. E quando se fala em aumento da qualidade se tem valorização do professor, melhora da infraestrutura, apoio ao aluno e, não menos importante, vontade política.

PROPOSTAS

l Celso Russomanno (PRB)

O grande desafio da saúde não é só entregar as novas unidades que vamos fazer, mas, principalmente, fazer funcionar a rede que já existe. Implantaremos uma gestão de qualidade com as seguintes ações: informatização dos equipamentos de saúde para melhorar a assistência, valorização dos profissionais e redução das filas de espera para consultas, exames e internações. Além disso, vamos melhorar o manejo das doenças crônicas (hipertensão e diabetes) e a logística de entrega de medicamentos.

l Luiza Erundina (PSOL)

Para garantir o enfrentamento das diferentes demandas locais, marcadas por profundas discrepâncias, vamos descentralizar a gestão da Saúde. A oferta de serviços está marcada pela primazia das Organizações Sociais, num amplo processo de terceirização e sucateamento dos serviços. Trabalharemos para a criação de plano de carreira adequado, com ratificação do caráter estatal dos diferentes equipamentos, buscando um atendimento integral e respeitando as especificidades das pessoas e locais.

l Fernando Haddad (PT)

Minha proposta para a área da saúde é investir na ampliação da Rede Hora Certa e na construção de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). A Rede Hora Certa diminui o tempo de espera dos pacientes para a marcação de consulta, de exame e de cirurgia. E a UPA melhora o atendimento de urgência da população. 

Essa visão estratégica não existia em São Paulo. Além disso, entreguei um novo hospital, no Jabaquara, e outras duas unidades estão em obras, em Parelheiros e na Brasilândia.

l Major Olimpio (SD)

Ampliar o número de leitos e o Atende, implementar o prontuário eletrônico, aperfeiçoar o Programa Saúde da Família, criar o Saúde do Idoso e ampliar a rede de UPAs, UBSs e AMAs Especialidades. Também vamos organizar a distribuição de medicamentos e ampliar a lista oferecida, aumentar o número de médicos, estimular a medicina preventiva e reduzir tempo de agendamento, além de implementar unidades móveis, colocar autoridade de saúde nas subprefeituras e acabar com as cracolândias.

l João Doria (PSDB)

Contratar 800 médicos para suprir de imediato as vagas em aberto no sistema municipal de saúde. Usar o cartão do SUS como chave de acesso ao prontuário eletrônico, que será criado para cada paciente. Usar a telemedicina para garantir acesso imediato a exames e consultas com especialistas. Melhorar as condições de trabalho e qualificação dos profissionais da saúde que atuam na capital. Usar horários alternativos na rede privada para eliminar a espera por exames na rede municipal.

l Marta Suplicy (PMDB)

Saúde será a prioridade na minha gestão. Começaremos normalizando o fornecimento de remédios, depois contrataremos mais 2 mil médicos. Vamos concluir todas as obras que estão paradas, desde UBSs até hospitais que pertencem ao Município e estão fechados por falta de investimento. Além disso, criarei um programa específico para a saúde da mulher, o SIM (Saúde Integrada da Mulher), que terá 12 unidades com ginecologista, obstetra, geriatra, oncologista e laboratório.

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