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Ação entre inimigos

A candidata de fala atrapalhada frente ao adversário com o tique do riso insolente é uma cena que não enseja à decisão do voto de ninguém. Ainda mais quando o conteúdo não ajuda à configuração do que se possa chamar de um debate, aqui entendido como exposição de argumentos contra ou a favor de causas, ideias, projetos.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2014 | 02h02

O primeiro confronto da campanha do segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, patrocinado pela TV Bandeirantes, deixou claro que o modelo imposto pelos marqueteiros não funciona a contento. É essencial a participação de entrevistadores - sejam jornalistas ou até mesmo eleitores sorteados como uma vez fez a TV Globo - que façam perguntas sobre temas não conhecidos previamente pelos candidatos e com direito a aprofundamento razoável do assunto. Réplica e tréplica, no mínimo.

Há quem tenha visto na noite de terça-feira um debate "quente". Em comparação aos programas do primeiro turno, com aquela limitação de tempo devido à obrigatoriedade de participação de muitos candidatos, sem dúvida foi mais interessante. Mas a "quentura" esteve todo tempo relacionada à forma incisiva com que Dilma e Aécio dirigiam-se um ao outro.

Ambos mostraram capacidade ofensiva - cada um a seu modo de acordo com suas características pessoais -, mas ficaram rodando dentro dos círculos de sempre. Espremendo o que foi dito, a gente se lembra do quê? Da troca de acusações sobre temas que estão todos os dias no noticiário. O senador disse que a presidente é "leviana" e ela o acusou nepotismo. Sim, e daí a discussão evolui para onde? Para lugar algum.

E assim seguiram cada qual atuando em seu quadrado, no terreno que lhes parecia mais seguro e favorável. Ao ponto de a presidente ocupar o precioso tempo com questões relativas a Minas Gerais, deixando de lado o restante do eleitorado nacional. A questão interessava à campanha dela. Mas esse tipo de programa não é feito para servir ao público?

Do jeito que está, não mesmo. E se acharmos que sim, estamos todos num belo exercício de autoengano. Temos pela frente ainda três supostos debates que, a seguirem a regra dos marqueteiros, vão de novo repetir a agressividade enfadonha e sem resultados.

No modelo atual os candidatos têm o controle do programa, conduzem-no como bem entendem, corrigem as falhas ou acentuam acertos conforme lhes indicam os conselheiros nos intervalos e ficam transitando nas suas zonas de conforto, procurando empurrar o oponente para a zona de desconforto.

Isso faz parte do jogo, mas não é todo o jogo. Não se trata de advogar de maneira artificial um diálogo de donzelas. Mas sim de exigir um questionamento sério a fim de que o eleitor não fique fora do debate hoje reduzido a uma ação entre inimigos reciprocamente protegidos.

Crédito das pesquisas. Toda eleição é a mesma coisa: os acertos das pesquisas são esquecidos e seus desacertos superdimensionados. O problema não está na amostragem das tendências - todas captadas nesta eleição particularmente imprevisível -, mas na expectativa de que elas adivinhem o resultado das urnas.

Por mais que se diga que refletem um momento, as pessoas insistem em vê-las como bolas de cristal e desconsideram os demais fatores. O principal deles, as decisões de última hora. Depois de encerrada a propaganda eleitoral, o período de pesquisas e os debates, sobram ainda ao menos 24 horas para as pessoas refletirem e conversarem a respeito de tudo o que se passou na campanha.

A continha de dois pontos para lá três pontos para cá não para em pé diante das condições objetivas e subjetivas da política. Essas é que compõem o cenário que levará ao resultado. Mas é sempre assim, na próxima eleição começa tudo de novo.

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